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Maré Cheia
Quarenta e dois anos. Foi esse o tempo que a Sebastiana passou ao lado do Armando sem que ele nunca tivesse reparado na cor verdadeira dos olhos dela. Nem uma vez. Nem quando ela adoeceu em oitenta e sete, nem quando o pai dela morreu, nem quando os dois filhos nasceram no hospital de Registro. Nada. Ele chegava do trabalho, tirava a botina na porta da cozinha e perguntava se o feijão já estava no fogo.
Ela não reclamava. Para quê? Tinha casa, tinha fogão de seis bocas, tinha uma caderneta de poupança com cento e vinte mil reais que os dois juntaram a vida inteira vendendo queijo e rapadura na feira. Amor? Isso era coisa de novela das oito, de filme americano. Não enche barriga.
A Sebastiana conheceu o Armando na festa do Divino em Iporanga. Ela tinha vinte e três anos e um vestido de chita amarela que a mãe costurou à noite, na máquina emprestada da vizinha. Ele estava parado perto da barraca de quentão, com um chapéu de feltro e o bigode aparado. Era o dono do único posto de gasolina da cidade. Viúvo. Sem filhos. A sogra da Sebastiana, a dona Zulmira, na época viva, sentou do lado dela no banco da igreja e disse exatamente assim:
— Escuta o que eu te falo. Homem trabalhador, com CNPJ e imóvel quitado, não aparece duas vezes na vida da mulher. Esquece esse negócio de formiga na barriga. Depois dos quarenta, o que segura casamento é respeito.
A mãe dela assentiu, passou a mão no terço e falou que a filha ia dar um passo bonito. A Sebastiana abaixou a cabeça e aceitou porque não conhecia outro jeito de desobedecer.
O casamento foi no cartório e na roça, tudo junto. Os convidados beberam cachaça da serra até a madrugada, o acordeão tocou forró a noite inteira. O Armando dançou com ela uma única vez, com a mão suada nas costas dela. Depois foi conversar com o prefeito sobre imposto de mercadoria. Ela ficou sentada numa cadeira de fio olhando as luzinhas do pátio, com o véu apertado na cabeça, um suor frio escorrendo pela nuca, pensando se era só aquilo mesmo que a vida tinha para oferecer.
E era.
Os anos passaram como o ônibus das quatro e meia: sempre no mesmo horário, sempre levantando a mesma poeira, sempre vazio de novidade. O Armando acordava às cinco. Ligava a máquina de moer. Descia para o posto. Voltava ao meio-dia, almoçava olhando para o jornal, falava do preço da gasolina, do roubo na estrada, da safra da banana. Dormia do lado esquerdo da cama. Roncava. Acordava no outro dia e fazia tudo outra vez.
A Sebastiana acordava antes. Preparava o café, passava a roupa dele, separava o troco do posto, ia para a roça onde plantava mandioca e tomate, voltava para casa, fazia o jantar, lavava a louça, rezava sozinha no quartinho dos fundos. Nunca brigavam. Nunca riam juntos também. Era uma vida sem buracos e sem sobressaltos. Um corredor liso, reto, sem porta nenhuma.
Uma vez, a Diva, vizinha de cerca, perguntou assim, do nada, enquanto as duas colhiam abobrinha no quintal:
— Seu Armando te faz falta quando viaja?
A Sebastiana pensou. Espetou a faca no talo de uma folha seca, limpou a lâmina na barra da saia. Respondeu:
— Ele quase não viaja.
O Armando morreu numa quarta-feira, à tarde. Estava deitado no sofá vendo o jornal regional. A Sebastiana ouviu o corpo dele cair no chão da sala, um baque surdo, como um saco de feijão despencando da caminhonete. Correu descalça. Ele estava de olho aberto, a cara roxa, a mão no peito. Infarto fulminante. Ela ligou para o Samu, depois para os filhos. Quando a ambulância chegou, ela já tinha fechado os olhos dele com dois dedos, lavado o rosto com uma toalha molhada e trocado a aliança de mão, porque a mão dele estava inchada demais e o anel ficaria preso.
Não chorou. Ficou sentada no degrau da cozinha, mexendo com a colherzinha no açúcar do café esfriado, ouvindo os paramédicos dizerem que lamentavam muito. Passou a noite em claro organizando os documentos, a certidão de óbito, o carnê do posto. No outro dia, o filho mais velho, o Danilo, chegou de Curitiba. A filha, a Juliana, veio de Santos. Abraçaram a mãe, choraram nos ombros dela. A Sebastiana ficou olhando para o retrato do Armando na estante, tentando achar dentro dela uma dor que não veio.
Só veio um cansaço. E uma vontade muito grande de abrir as janelas.
No sétimo dia depois do enterro, a Sebastiana acordou às quatro da manhã, preparou um café, acendeu a luz da cozinha e ficou olhando para o quintal. As bananeiras balançavam com o vento. Um sabiá cantava escondido em algum lugar. Ela passou a mão na toalha de mesa, sentiu os pelinhos de algodão nos dedos, e pensou que nunca tinha ido ao mar.
Santos ficava a quatro horas de ônibus. A Juliana morava lá. Tinha apartamento alugado perto do canal seis. A Sebastiana pegou o telefone, discou o número da filha, e disse:
— Filha, eu estou precisando ver o mar.
Do outro lado, um silêncio. Depois a voz da Juliana, meio assustada:
— A senhora tá passando mal, mãe?
— Não. Tô bem. Melhor do que nunca.
Ela arrumou uma sacola pequena. Separou duas calças, três camisetas, um vestido florido que a Juliana mandou de presente no Natal passado e que ela nunca tinha usado porque o Armando disse que era roupa de mulher nova. Guardou o dinheiro do funerário no porta-níquel. Trancou o portão da casa. Na frente do posto de gasolina, o novo gerente já atendia os clientes. Ela passou reto.
No meio do caminho, o ônibus parou numa lanchonete de beira de estrada. A Sebastiana desceu, comprou uma água-de-coco e uma coxinha de catupiri. Comeu em pé, olhando para o movimento. Uma moça com a barriga tatuada passou correndo atrás de uma criança. Um casal se beijava encostado numa moto. A Sebastiana sentiu uma vontade absurda de rir. Riu. Baixinho, com a mão na boca, como se estivesse fazendo uma coisa proibida.
O mar apareceu na janela do ônibus como um lençol azul estendido no varal do mundo. Ela encostou o rosto no vidro. Lágrima? Talvez. Mas ela não era mulher de chorar.
A Juliana a buscou na rodoviária. Levou a mãe para a praia do José Menino logo no primeiro dia. A Sebastiana olhou para aquela imensidão e ficou quieta. Depois perguntou:
— Isso aí não acaba nunca?
— Não, mãe. Vira oceano. Vai até a África.
A Sebastiana assentiu, mas não tirou o sapato. Voltou no outro dia. E no outro. Passou a madrugada ouvindo as ondas quebrarem no quebra-mar. Na quinta-feira, ela comprou um biquíni verde-água de uma vendedora ambulante. Provou na frente do espelho do quarto da filha. Achou bonito, mesmo com as varizes. O corpo era dela. A vida era dela.
Na sexta-feira de manhã, o mar estava parado. Um espelho. A Juliana foi trabalhar na loja de material de construção. A Sebastiana foi sozinha para a praia. Tinha aprendido a nadar escondida, quando menina, no rio Ribeira, perto da roça do avô. O Armando nunca soube.
Ela caminhou pela areia molhada. Sentiu a água bater nos tornozelos, nos joelhos. Foi entrando. A água subiu pela cintura, pelos seios. O corpo dela flutuou. Ela bateu os braços para a frente, para o lado, sem medo.
O mar continuava calmo.
Ela nadou uns vinte metros. Trinta. A faixa de areia ficou distante. O sol batia na nuca. Uma onda mais larga veio, levantou o corpo dela, levou para um lado. A Sebastiana engoliu água. Foi pouco. Depois veio outra. E outra.
Ela não gritou.
Não chamou ninguém.
Sentiu o fundo fugir dos pés.
A última coisa que viu foi o azul se fechando sobre a cabeça, um azul tão limpo que parecia pintado de novo.
O corpo dela foi achado por dois pescadores perto do emissário. A Juliana reconheceu a mãe pela aliança no dedo, aquela que a Sebastiana não quis tirar. O irmão viajou de Curitiba. O enterro foi no cemitério do Paquetá, num dia de chuva fina. O padre falou de fidelidade, de companheirismo, de mulher guerreira que esperou o marido ir para então descansar.
A Juliana ficou olhando para o caixão. Pensou na conversa por telefone. “Eu estou precisando ver o mar.” Só agora entendia. A mãe não precisava ver o mar. Precisava entrar nele. Precisava sair de quarenta e dois anos de água parada.
Na cidade onde a Sebastiana viveu, a Diva contou para as outras vizinhas:
— Morreu afogada. Sete dias depois do Armando. Não aguentou a saudade.
— Claro que não — emendou a outra, a Juraci, com a mão no peito. — Viveram a vida inteira juntos. Era amor de raiz. Desse que não acaba nem com a morte.
— Que Deus perdoe, mas eu sempre falei: essa mulher não ia durar sem o homem. Foi murchando.
Ninguém falou do biquíni verde-água encontrado no corpo. Ninguém falou que a Sebastiana tinha pago uma água-de-coco na estrada e rido sozinha. Ninguém falou que ela tinha ligado para a filha numa quarta-feira de manhã e dito, com uma voz que ninguém da família nunca tinha ouvido: “Melhor do que nunca.”
A casa da Sebastiana e do Armando ficou fechada por dois meses. Depois o Danilo mandou pintar a fachada e colocar uma placa: “Imóvel à venda”. A Juliana voltou para Santos. O posto de gasolina continuou funcionando normalmente, com o novo gerente, um rapaz de Peruíbe, que contratou uma moça para cuidar do caixa e colocou um letreiro luminoso com o preço da gasolina.
No sábado de manhã, uma família de fora visitou a casa. O marido abriu a porta da cozinha e falou para a esposa:
— Vê se o piso é de cerâmica, amor.
A mulher passou a mão na parede, checou o forro do telhado, abriu a torneira do quintal. Sentiu cheiro de banana madura e de casa antiga.
— Acho que dá para a gente viver aqui — disse ela.
O marido riu.
— Então fecha.
Ela ficou parada na porta da cozinha, olhando o quintal. A mesma bananeira. O mesmo sabiá. A mesma toalha de mesa que a Sebastiana deixou esticada na despedida.
A mulher não sabia de nada. Não precisava saber. Ela passou a mão na barriga, sentiu o bebê mexer, e fechou a porta atrás de si.
