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A mulher que jogou minhas flores no lixo revelou o último pedido da minha mãe

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Parei a alguns metros do túmulo, com as mãos ainda apertando o buquê de gérberas cor-de-rosa. Não conseguia acreditar no que via. Uma senhora de cabelos brancos presos num coque baixo, vestida com uma calça de linho e uma blusa clara, acabara de pegar as flores que eu havia colocado ali três dias antes e as atirava, sem a menor cerimônia, dentro de um saco de lixo.

— O que a senhora está fazendo? — minha voz saiu num tom mais alto do que eu pretendia, um misto de raiva e incredulidade.

Ela se virou devagar, como se já esperasse por aquele confronto. Seus olhos castanhos encontraram os meus, e notei que estavam marejados.

— Por favor, não se zangue comigo — pediu, a voz calma, mas embargada. — Eu só estou cumprindo uma promessa que fiz à sua mãe.

Enquanto ela falava, um filme inteiro passou pela minha cabeça: as inúmeras vezes em que eu chegava ao Cemitério da Consolação e notava que as flores no túmulo do meu pai permaneciam intactas, enquanto as do túmulo da minha mãe desapareciam em poucos dias. No início, achei que fosse o vento forte de agosto, os pássaros, até mesmo algum zelador mais exagerado na limpeza. Mas acontecia toda semana. Na quarta vez, passei a marcar as hastes com uma fitinha azul, só para ter certeza — e as hastes com a fita sumiam também.

Minha mãe, dona Helena, tinha partido havia sete meses, depois de uma batalha de dois anos contra um câncer de pâncreas. Meu pai, seu Roberto, já havia falecido havia mais de uma década, vítima de um infarto fulminante. Com ele, a dor veio de uma vez e foi assentando. Com minha mãe, a dor foi lenta, diária, e eu me apeguei ao ritual de levar flores frescas toda terça-feira de manhã, antes do trabalho, como se aquilo pudesse manter viva a nossa conversa silenciosa.

Naquela manhã fria de junho, eu tinha ido ao cemitério às seis da manhã, escondida atrás de um jazigo antigo, só para descobrir quem mexia nas flores. Vinte e dois reais na banca da esquina, toda semana, o moço já separava o buquê antes mesmo de eu pedir. E ali estava a senhora. Ela limpou as mãos numa toalhinha que tirou da bolsa e deu um passo hesitante na minha direção. Sentia um cheiro misturado de terra molhada e vela queimada vindo do setor dos jazigos perpétuos.

— Você é a Natália, não é? — perguntou, me olhando com um carinho que eu ainda não entendia. — Sua mãe falava de você… bom, quase toda noite. Eu fui cuidadora dela nos últimos três meses, no hospital. Meu nome é dona Zuleica.

Senti um nó na garganta ao ouvir o nome. Minha mãe comentara sobre uma tal de Zuleica, uma senhora viúva que trabalhava como cuidadora voluntária na ala de cuidados paliativos do Hospital das Clínicas. Disse que foi ela quem segurou sua mão nas madrugadas em que a dor não a deixava dormir, quando eu, por causa do plantão na agência de design, não conseguia estar presente. Agora aquela mulher estava ali, na minha frente, jogando minhas gérberas no lixo.

— Foi sua mãe quem me pediu — continuou dona Zuleica, enrolando a ponta da toalhinha entre os dedos. — Ela me fez prometer que, se um dia eu visse você trazendo flores ao túmulo toda semana, eu as tiraria. Não por maldade, minha filha.

Puxou um envelope pequeno e um pouco amassado da bolsa e o estendeu na minha direção. O papel pardo tinha uma mancha de café num canto.

— Disse que você só deveria receber quando… quando perguntasse por que as flores sumiam. Quando eu visse que você não estava só… cumprindo tabela de luto, sabe? Que realmente precisava de uma resposta.

Apertei o envelope contra o peito por alguns segundos antes de abri-lo, ali mesmo, com o sereno da manhã ainda grudado na blusa. Dentro havia uma única folha de papel, com a caligrafia tremida da minha mãe — aquela letra redonda que ela usava nos bilhetes de bom-dia que deixava na porta da geladeira.

“Nat,

Desconfiei que você ia teimar com as gérberas. Sempre foram as suas preferidas, nunca as minhas — lembra da briga feia na sua formatura por causa dos cravos brancos? Pois é. Seu coração tá plantado numa terra que não rega mais nada.

Não quero isso pra você.

Faz o seguinte: toda vez que a Zuleica jogar as flores fora, finge que sou eu dizendo pra você sair desta friagem e tomar um café de verdade. E me promete que vai tentar rir de alguma besteira ainda esta semana. Nem que seja da minha letra, que está horrível.

Da sua mãe, que sempre vai te olhar, mas agora de um lugar onde o café é melhor.”

As palavras se borraram diante dos meus olhos. As lágrimas escorriam sem pedir licença, mas não doeu do jeito que eu esperava. Respirei fundo, devagar, e olhei para dona Zuleica, que me observava com um meio sorriso enviesado. Ela pigarreou:

— Ela tinha… razão, sabe — eu disse, enxugando o rosto com a manga do casaco. — Toda terça, seis da manhã, de Fox prata estacionado na Consolação. Eu estava… é… me escondendo aqui.

A cuidadora me abraçou sem pedir. Um abraço firme, de quem já consolou muita gente, e sussurrou:

— A Helena aprontava cada uma… Uma vez, no meio da madrugada, me pediu para cantar um samba de breque que ela adorava. — Afastou-se um pouco, fungando. — E, se me permite, acho que você tem um buquê aí que merecia um destino mais quente.

Olhei para as flores que ainda estavam no plástico branco, as mesmas que eu pretendia colocar sobre a lápide de mármore escuro. Lembrei do bilhete, dos cravos brancos da formatura. Estendi o buquê para dona Zuleica.

— Leva pra sua casa — falei. — Duram até duas semanas se trocar a água todo dia. Gérbera é danada de resistente.

Ela aceitou com os olhos brilhando, colocou as gérberas com cuidado dentro da bolsa de pano, ao lado da toalhinha. Depois, as duas saímos do cemitério juntas, em silêncio, cada uma para um lado da calçada da Rua da Consolação.

— Ei, Natália — dona Zuleica parou na esquina, a bolsa balançando. — E o preço do buquê, você pensou que eu não ia notar? Vinte e dois reais toda semana. Sua mãe diria que é um absurdo. — Sorriu, ajeitando as flores para não amassarem na alça.

Ela seguiu para o ponto de ônibus. Eu entrei no Fox prata e fiquei um instante com a mão no volante frio, sentindo o cheiro de gasolina misturado com o perfume doce das gérberas que já não estavam mais ali. Dei partida. Só quando parei no primeiro sinal vermelho, enfiei a mão no bolso do casaco atrás de um lenço e meus dedos tocaram uma ponta áspera: a fitinha azul que eu usava para marcar as hastes. Devia ter caído do buquê anterior. O sinal abriu, arranquei, e ela continuou lá, enganchada entre o isqueiro do carro e a costura do forro, balançando com o movimento.

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