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O Banquete da Dona Neide

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Laura sempre gostou de viajar de trem. Aviões a deixavam ansiosa com tanta burocracia, ônibus a cansavam com as curvas fechadas das serras, mas o trem… o trem lhe dava uma sensação de calma que nenhuma planilha de custos no escritório de arquitetura conseguia proporcionar. Ela comprou a passagem para o noturno que saía de Belo Horizonte rumo a Vitória sem pensar duas vezes. Precisava desesperadamente daquilo: um cubículo silencioso deslizando sobre trilhos, uma cama estreita balançando e a promessa de sentir a areia quente de Guarapari sob os pés.

De carona, levava um esgotamento que já durava meses. O projeto do novo centro comercial sugara cada gota de sua energia. Quando o trem apitou e deixou a plataforma da estação Central para trás, ela se ajeitou no beliche de cima, abriu um romance policial surrado e sentiu os ombros finalmente se soltarem. A paisagem pela janela ainda era um emaranhado de prédios cinzentos e vielas de asfalto, mas logo surgiriam as montanhas azuladas de Minas.

Durou vinte minutos o paraíso.

Na primeira parada longa, a porta da cabine correu com um estrondo. Uma senhora de seus sessenta e tantos anos entrou como um pequeno furacão. Vestia uma blusa de algodão estampada com enormes hibiscos amarelos e carregava, além de uma mala de rodinhas que gemia, uma sacola de feira de cada mão e uma bolsa térmica gigante a tiracolo. O cabelo grisalho, preso num coque frouxo, dava um ar de quem já travara muitas batalhas naquele dia.

— Ufa, achei que o trem ia sair sem mim! — exclamou, mais para si mesma do que para qualquer outro ser humano no vagão.

Laura apenas tirou os olhos do livro por um segundo e voltou a ler, mentalizando a praia. Mas o som de embalagens sendo abertas era mais alto que o barulho dos trilhos. A senhora, que depois Laura saberia se chamar Neide, começou a desfazer seu arsenal. Primeiro, um pote de farofa úmida com bacon. Depois, um embrulho de alumínio que revelou quatro coxinhas de frango ainda mornas. Em seguida, um pote de ovos de codorna em conserva. A cada novo item revelado, o ar da pequena cabine se transformava.

O cheiro da fritura se agarrou ao carpete, às cortinas, ao estofado. Laura fungou e tentou abrir um pouco mais a janela basculante.

— Nem pense nisso, menina! — a senhora estacou. — Essa janela vai deixar entrar uma ventania que eu morro de sinusite. Já pedi pro maquinista regular o ar-condicionado porque gelava os cotovelos.

Laura forçou um aceno com a cabeça. Engoliu seco. O ar-condicionado era agora uma brisa morna, quase decorativa, e o cheiro da coxinha se misturava a um perfume adocicado de desodorante que a senhora aplicara generosamente assim que se sentou.

A viagem mal completara três horas e Neide já emendara a coxinha com um sanduíche de pão de forma recheado com rosbife e cebola crua. Laura sentiu o estômago revirar. Desceu do beliche, calçou os chinelos e foi até o corredor do vagão. Encostou a testa no vidro gelado e olhou para a escuridão que engolia os pés de eucalipto. Um senhor de bigode que saía do banheiro a encarou com solidariedade.

— Tá fogo lá dentro também? — perguntou ele, apontando com o queixo para a cabine ao lado.

— Um banquete sem fim — murmurou Laura.

— Essa gente acha que vagão é cozinha de fazenda. Mas não arruma briga, não. Vai que a criatura tem uma faca pra descascar laranja.

Laura quase riu, mas o cheiro de cebola crônica que emanava de sua própria roupa a fez perder o ar. Ao voltar para a cabine, Neide abrira a bolsa térmica e agora retirava, com a gravidade de um ritual, uma marmita térmica de feijão tropeiro. O perfume defumado da linguiça com alho ocupou cada centímetro cúbico do espaço. Laura perdeu a fome. Qualquer fome. Pela vida, inclusive.

Não houve trégua. Quando os passageiros começaram a se recolher para dormir, Laura rezou por silêncio. Apagou a luz de leitura e enfiou a cabeça debaixo do travesseiro fino. A quietude do vagão foi quebrada pelo tilintar metálico de uma colher raspando em vidro. Dona Neide, à luz de uma lanterna minúscula presa à testa, saboreava uma generosa porção de doce de leite direto do pote.

Laura fechou os olhos, apertou os maxilares. Contou até vinte. Depois até cinquenta. Mas o que fez sua paciência ruir não foi um som, e sim um odor. Um cheiro pungente, azedo, que se sobrepôs a todo o resto: Neide tirara os sapatos e acomodara os pés descalços na beirada da cama de Laura. Como se a poltrona não bastasse, os dedos enfaixados em meias finas estavam ali, a centímetros de seu rosto.

Laura sentou-se de chofre.

— Dona… Por favor. Já são onze da noite. — sua voz saiu mais áspera do que planejava. — A senhora não pode comer amanhã? O cheiro, a bagunça… e agora isso.

Neide retirou os pés como se tivesse levado um choque. A princípio, seus olhos se arregalaram em choque, depois se estreitaram em ferocidade.

— Eu não estou fazendo nada proibido. Eu tenho pressão baixa, preciso me alimentar. E se paguei a passagem, eu como a hora que eu quiser. Ninguém aqui tá no meu prato pra me dar ordem!

— Ninguém quer mandar na sua vida. Mas a gente divide o mesmo oxigênio. E ele está insuportável. O vagão inteiro está reclamando.

— E vão fazer o quê? Me jogar na linha?

A alteração de vozes despertou o corredor. A maquinista, uma mulher forte de cabelos trançados, parou na porta e analisou a cena com preocupação. Sem trocar uma palavra com Laura, ela se virou para Neide e disse, com uma calma de quem já apartara muitas brigas, que talvez fosse melhor guardar as comidas mais fortes e deixar o ar circular um pouco. Que havia outros passageiros passando mal.

Neide empurrou a marmita para dentro da bolsa térmica como quem fecha um cofre. Bateu o pote no fundo da sacola e emitiu um riso curto, amargo.

— Tá certo. Pobre não pode comer. Velha não pode respirar do jeito que quer. Eu fico quieta.

O vagão mergulhou num mormaço de ressentimento. Laura ouviu, na madrugada, o som abafado de alguém fungando baixinho, mas fingiu que dormia. Sentiu um aperto no peito, mas ainda era mais raiva que culpa.

Pelos cantos do vidro, a primeira faixa cinza da manhã começou a surgir. Faltava menos de uma hora para Cariacica. Laura se espreguiçou e viu que Neide estava acordada, olhando fixo para a janela. Todo o arsenal de banquetes estava misteriosamente lacrado. Sobre a mesinha dobrável havia apenas um bule de chá de erva-doce já frio e umas bolachas de água e sal.

— Moça — a voz de Neide saiu como um sopro. — Me desculpa a noite passada. Eu não queria atrapalhar ninguém.

Laura desceu da cama com cuidado, pisando firme no carpete já castigado.

— Eu também fui grosseira. É que o cansaço…

Neide fez um gesto com a mão, pedindo que ela parasse. Tentou se levantar para fechar a mala, mas seus braços bambearam. Ela ficou branca de uma hora para outra, a testa brilhando de suor. Os dedos tremeram ao procurar apoio na poltrona.

Laura se assustou. Largou sua nécessaire e segurou a senhora pelos ombros.

— A senhora tá passando mal? Vou chamar alguém!

— Não precisa… é a maldita diabete. Meu açúcar caiu. — A voz estava sumindo. — Na bolsa… tem um sachê de mel.

Laura remexeu no emaranhado de sacolas até encontrar os sachês. Deu dois de uma vez. Neide os engoliu com avidez, e só então um pouco de cor voltou ao seu rosto. A maquinista apareceu correndo, alertada por um vizinho de cabine, e trouxe um copo d'água.

— A senhora já sabia e não me contou? — perguntou Laura, confusa, ainda segurando a mão fria da mulher.

Neide umedeceu os lábios e desviou o rosto, mirando os pés de manga que começavam a surgir na paisagem capixaba.

— Eu não queria dar mais trabalho do que já dei. A comida… eu faço isso porque preciso. Não posso ficar mais de três horas sem comer, senão desmaio. E eu não tinha dinheiro pra ficar comprando lanche no trem, você viu quanto custa um salgado? Um roubo. Juntei cada centavo por um ano pra essa viagem, vendi panos de prato na feirinha do bairro. Meu filho me espera em Vitória, ele não me vê faz seis anos…

Laura sentiu o estômago se fechar de um jeito completamente diferente. Não era mais o incômodo físico. Era vergonha.

— A senhora podia ter simplificado as coisas. Eu teria entendido.

— Será? Olha a cara que vocês fazem quando alguém tira uma marmita velha. Ninguém quer ouvir história triste de velho pobre. Todo mundo quer é chegar na praia.

O trem anunciou a aproximação da estação. Neide se recusou a deixar Laura carregar sua mala, mas Laura insistiu, arrastando a bolsa térmica com uma força que não sabia que tinha. Ao pisarem na plataforma de Pedro Nolasco, o ar quente e salgado da baía de Vitória atingiu seus rostos.

Um homem alto, de barba por fazer, acenava freneticamente. Ao seu lado, uma menina de vestido rodado segurava um cartaz colorido onde se lia "Bisa Neide". A senhora parou. Seus pés se fixaram no chão de ladrilho. A menina correu, de bracinhos abertos, e se jogou no pescoço da avó. Neide a abraçou com uma força inacreditável para quem estivera pálida meia hora antes. Um choro baixinho escapou, enquanto ela balançava a neta como se embalasse os anos todos em que não pudera fazê-lo.

O filho se aproximou, com olhos marejados, e ajudou com as malas. Antes de partir, Neide se virou para Laura e, sem dizer nada, apertou-lhe a mão por três longos segundos. Depois seguiu, amparada pelo filho, arrastando as sandálias sobre o piso quente.

Laura ficou parada. O odor de feijão tropeiro, doce de leite e cebola crua ainda estava incrustado em suas narinas, nas fibras do seu casaco de moletom. Mas agora, misturado a tudo isso, estava o cheiro iodado da maré baixa, o aroma de café torrado vindo de uma lanchonete na praça da estação e o perfume doce da menina de vestido rodado. Ela respirou fundo e sentiu, pela primeira vez em meses, que estava exatamente onde precisava estar: de coração aos pedaços, mas aberto. Puxou a alça da mochila no ombro e pisou na rua, em direção ao mar.

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