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Ela Desenhou um Sol no Chão e Eu Quase Perdi a Cabeça

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Sabe quando você acorda já cansado? Pois é. Naquela quinta-feira eu estava assim. Tinha virado a noite numa obra no Jardim São Benedito, em Campos dos Goytacazes, porque o pedreiro que contratei sumiu com o adiantamento e me deixou com o reboco pela metade. Eu sou pintor de parede. Trabalho por conta. E quando some um ajudante, sobra tudo pra mim.

Voltei pra casa lá pelas seis da manhã, com as costas doendo e uma vontade danada de tomar um banho e desmaiar na cama. Moro num conjunto habitacional antigo, daqueles que a prefeitura construiu nos anos oitenta no Parque Aurora. Prédio baixo, três andares, sem elevador. O cheiro do corredor é sempre o mesmo: mistura de veja com fritura do almoço de ontem. No terceiro andar tem uma vizinha que cria um papagaio na varanda, e o bicho grita “acorda, preguiçoso” sempre que alguém abre a porta da rua.

Pois bem. Estacionei a Saveiro na vaga de sempre, perto da lixeira, e fui andando até a entrada do bloco. E aí eu parei.

O chão inteiro estava desenhado.

Não era um rabisco qualquer. Eram flores, corações, um sol enorme com raios tortos, e uma frase escrita com giz amarelo: “Dona Marta, a senhora é a melhor tia do mundo”. Tinha até uma baleia no canto, perto do portão. Uma baleia azul com chafariz saindo da cabeça.

Fiquei parado ali, com a marmita vazia na mão, tentando entender. Do lado de dentro, a Dona Marta — que é a zeladora do prédio há uns vinte anos — estava agachada, passando o dedo devagar pelas letras. E chorava. Não era choro de dor. Era aquele choro de quem passou a semana toda se segurando e, de repente, encontrou um motivo pra soltar.

Ela limpava a calçada todo santo dia, juntava brinquedo perdido e guardava numa caixinha na guarita, nunca reclamou quando a molecada derrubava suco na escada. E as crianças tinham feito aquilo sozinhas, de manhã cedinho, antes de ir pra escola. A mãe de uma delas — a Cíntia, do bloco ao lado — contou que a filha acordou às cinco e meia pra terminar o sol antes da chuva.

Num primeiro momento, eu só queria dormir. Mas fiquei ali, com a marmita balançando na mão, olhando aquela baleia azul.

E foi aí que a coisa desandou.

— Que palhaçada é essa?

Era o seu Nivaldo. Apartamento 202, primeiro andar, janela de frente pra rua. Aposentado da Cedae, sessenta e oito anos, tem um gato que odeia todo mundo. Ele já tinha descido de chinelo e bermuda, apontando pro chão como se tivesse encontrado uma poça de esgoto.

— Isso aqui virou quintal de escola? Tá tudo riscado!

A Cíntia tentou explicar. Falou que as crianças tinham feito os desenhos pro aniversário da Dona Marta, que era uma homenagem, que o giz saía com água.

— E daí? — o Nivaldo cortou. — Eu vou entrar em casa com a sola do sapato cheia de tinta. A escada do prédio vai ficar colorida. Isso é bagunça, e bagunça em área comum não se faz sem falar com os outros.

A Cíntia riu, daquele jeito sem graça.

— Nivaldo, pelo amor. Na primeira chuva não fica nada. As crianças só queriam fazer uma gentileza.

— Gentileza se faz com cartão, com flor. Não riscando o chão dos outros.

Eu fiquei calado. Não é do meu feitio me meter. Mas, sei lá, estava cansado demais pra paciência. E quando vi a Dona Marta com o dedo ainda sujo de giz, a cara dela mudando de emoção pra uma espécie de vergonha, me deu um troço.

— O senhor tá reclamando de um desenho de criança — eu falei.

Não gritei, não avancei. Só falei.

O Nivaldo virou pra mim com aquela autoridade de síndico informal, de quem acha que morar há trinta anos num lugar dá direito a governar os outros.

— E você, o que tem a ver com isso? Mora aqui há quanto tempo? Dois anos? Você nem paga condomínio em dia.

Aquilo me atingiu num ponto errado. Porque era verdade. Eu estava com duas mensalidades atrasadas. Tinha perdido um serviço grande porque o cliente achou o orçamento caro, e agora o pedreiro fugido tinha levado o resto do meu fôlego financeiro. Eu ia receber por aquele trabalho do Jardim São Benedito só dali a duas semanas. E o Nivaldo sabia. Claro que sabia. Ele controlava tudo pelo grupo do condomínio: quem devia, quem reformava, quem fazia churrasco fora do dia.

Fiquei olhando pra ele. As têmporas latejando. E, em vez de discutir, me abaixei, peguei um pedaço de giz rosa que tinha sobrado perto do meio-fio e escrevi, com a minha letra de quem nunca teve letra bonita:

“Seu Nivaldo, bom dia. Hoje tem reunião de condomínio, não esquece.”

Todo mundo riu. Até uma senhora que passava com sacola de pão deu risada. A Dona Marta soltou um bufo e limpou o nariz na manga. A Cíntia engoliu seco, mas os cantos da boca subiram.

O Nivaldo não riu.

Ele ficou olhando a frase. Depois olhou pra mim. Depois pra calçada. Aí subiu de volta pro apartamento e bateu a porta com força. Ouvi o papagaio do terceiro andar gritar: “Acabou! Acabou!”

Fui dormir com aquele gosto meio amargo, meio doce na boca.

À tarde, acordei com o celular vibrando. Era mensagem da síndica no grupo do condomínio.

“Solicito que se apresente na portaria em trinta minutos.”

Pois é. Eu já imaginava. O Nivaldo tinha registrado uma reclamação formal. Com foto da calçada. Com foto da minha frase. Com um texto de três parágrafos que eu tive que ler duas vezes pra acreditar: ele citava o regimento interno, o artigo sobre áreas comuns, o parágrafo sobre depredação. Chamava o episódio de “ato coletivo de vandalismo em logradouro condominial”.

Eu li aquilo sentado na beirada da cama, com os olhos inchados de sono. E pensei: “É agora que esse velho me tira do sério de vez.”

Porque, entenda, eu estava errado em partes. Eu sabia que não devia ter escrito a frase. Mas o que me doía era a facilidade com que o Nivaldo transformava um presente de criança em crime. E como ele sabia usar o regulamento na hora de atingir os outros, mas nunca aparecia pra ajudar a Dona Marta a carregar o tambor de lixo.

Tomei um banho, vesti a primeira camisa limpa que achei e desci.

Na portaria estavam a síndica, a Dona Marta e o Nivaldo, sentados em cadeiras de plástico como se fossem três juízes de um tribunal de pequenas causas. A síndica me olhou com cansaço. Ela é aquela pessoa que resolve tudo e não dorme direito por causa dos outros.

— Sente-se — ela disse.

Eu não sentei.

— Acontece o seguinte — ela começou. — O seu Nivaldo pediu providências. E também pediu que a calçada seja lavada hoje, imediatamente, por quem sujou.

— Eu pago pela lavagem — falei. — Não é problema.

O Nivaldo soltou um riso curto.

— Pagar com quê? Com aquela promissória que você não honra desde março?

Travei. A síndica me olhou com pena. A Dona Marta baixou a cabeça. E o Nivaldo cruzou os braços, vitorioso.

Fiquei ali, em pé, com as mãos dentro do bolso da bermuda. Sentia o cheiro de desinfetante da portaria. O relógio de parede marcava quatro e vinte e sete.

Então eu falei baixinho, sem olhar pro Nivaldo:

— Eu limpo a calçada. E pago as mensalidades atrasadas. É só o banco liberar o meu pagamento na semana que vem. Dou a data certa, por escrito.

A síndica balançou a cabeça.

— Pode ser. Mas a questão não é só dinheiro. A reclamação do seu Nivaldo é sobre limites. Ele tem razão em parte: área comum não é tela pra usar sem combinar.

— Eu concordo — falei. E era verdade. A gente não pode simplesmente chegar desenhando no chão dos outros. Nem as crianças. Nem eu. Nesse ponto, ele estava certo.

Só que aí eu olhei pro Nivaldo de novo. Ele tinha um meio sorriso de quem estava vencendo. De quem ia ver a calçada lavada antes do jantar e dormir com o regulamento debaixo do travesseiro.

— Mas a baleia fica — eu disse.

Todo mundo me olhou.

— Como é? — perguntou a síndica.

— As crianças desenharam pra Dona Marta. Presente de aniversário. O combinado pode ser: os rabiscos enormes, as frases, o sol torto — eu lavo isso hoje, com mangueira e sabão. Mas a baleia do portão fica até chover. É o desenho que a menina da Cíntia levantou às cinco e meia pra terminar. Não vou apagar o presente de uma criança.

A Dona Marta levou a mão à boca. A síndica olhou pro Nivaldo, que estava roxo.

— Isso é desrespeito a uma decisão de condomínio — disse ele.

— Ainda não tem decisão — respondeu a síndica. — E, pra ser honesta, acho razoável. Limpa o resto, preserva o desenho principal por alguns dias. Está chuvoso pra essa época, daqui a pouco a água leva.

O Nivaldo levantou da cadeira tão rápido que derrubou um chaveiro pra fora do bolso. Pegou do chão, olhou pra mim, e disse:

— Você vai sair daqui achando que ganhou, mas o que você fez hoje não se faz. Chamar atenção pra gente em público, com giz, como se eu fosse palhaço. Isso não é coisa de homem.

— Eu não tô achando que ganhei — respondi. — Só tô lavando o que é meu e deixando o que é dela.

Saí dali, peguei um balde, uma vassoura e a mangueira que fica na área de serviço. Lavei a calçada por quarenta minutos. Esfreguei cada flor, cada coração, cada letra. A água escorria colorida pra sarjeta, formando um arco-íris meio triste correndo pro ralo.

A Cíntia apareceu com a filha — a menina da baleia — e ficaram me olhando. A pequena, de uns seis anos, segurava um giz branco na mão.

— Moço, vai apagar a baleia? — perguntou.

— Não — falei. — A baleia é sua. E da Dona Marta. Só não vai poder ter outras, por enquanto.

Ela ficou em silêncio. Depois desenhou, bem pequeno, perto do rodapé do portão, um peixinho branco do tamanho de uma moeda.

— Pra baleia não ficar sozinha — disse.

E saiu correndo antes de eu responder.

Duas semanas depois, recebi o pagamento do serviço. Quinhentos e oitenta reais depositados, na conta certa. Paguei as mensalidades atrasadas e quitei uma parcela da máquina de tinta que comprei sem entrada. Sobrou pouco, mas sobrou.

O Nivaldo nunca mais tocou no assunto. Mas toda vez que passo pela portaria, vejo a baleia azul ainda lá, e o peixinho branco ao lado. Já choveu três vezes, e o desenho resiste. A menina tinha passado fixador de cabelo por cima, descobri depois. O giz virou pedra.

E quando o Nivaldo desce pra esvaziar a lixeira, preciso confessar: ele desvia o olhar da baleia. Como quem evita olhar pra uma dívida.

Não guardo mágoa. Já aprontei coisa pior quando era moleque. Mas escrever aquilo no chão foi a primeira vez em muito tempo que eu me senti dono da minha própria calçada.

E a baleia segue ali. Com chafariz na cabeça, sorrindo pro portão.

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