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A Visitinha da Goiabada
Dona Irene nunca foi de aparecer sem avisar, mas naquela quinta-feira ela estava com o coração mole. Tinha acabado de comprar um pote daquela goiabada cascão que a Ana Paula adorava desde criança, da marca caseira que só vendem na feira da Praça XV. Resolveu fazer uma surpresa. Pegou o carro em Niterói e foi até o apartamento da filha em Pendotiba, aquele que ela mesma ajudou a comprar quando Ana Paula casou com o Marcelo.
Subiu as escadas devagar, sentindo o cheiro de corredor abafado que nunca mudava. A chave reserva estava com ela, como sempre esteve. Abriu a porta fazendo pouco barulho, já ensaiando o “surpresa, minha filha!” que jamais chegou a dizer.
Da sala vinha um riso abafado, um riso que ela não conhecia. E depois a voz do Marcelo, baixa e rouca, sussurrando um “gostosa” que não era para sua filha.
A cena que Dona Irene encontrou na sala fez o pote de goiabada escorregar da sua mão e se espatifar no chão de porcelanato. Marcelo estava no sofá com uma moça que ela nunca tinha visto, uma morena de cabelo alisado e blusa de oncinha. Os dois se desgrudaram feito bicho flagrado na luz.
Irene gritou. Mas gritou tanto que os vizinhos do 401 abriram a porta, e os do 301 subiram para ver o que estava acontecendo. Chamou o genro de tudo quanto foi nome — vagabundo, encostado, moleque, e mais uns três que ela nem lembrava que sabia. A moça da oncinha pegou a bolsa e desceu as escadas correndo, tropeçando no salto fino. Marcelo ficou. Sentou na beirada do sofá, ajeitou a camisa e olhou para a sogra com um ar entediado que fez ferver ainda mais o sangue dela.
— Você não tem vergonha na sua cara? Dentro da casa que eu comprei? Com a minha filha e meus netos a caminho de casa?
Marcelo deu de ombros.
— A Ana que cuida. Não sou eu que mando ela voltar cedo não.
Foi quando a porta se abriu de novo e Ana Paula entrou, com o João Pedro no colo e a Marina pela mão. Os dois meninos largaram as mochilas no chão olhando a bagunça — o vidro quebrado, o cheiro doce de goiabada no ar, o pai deles com a camisa aberta e a avó trêmula apontando o dedo.
— Mãe, o que aconteceu aqui?
— Aconteceu que eu peguei esse traste com outra mulher no sofá, isso aconteceu. E você vai botar ele pra fora agora mesmo.
Ana Paula empalideceu. Olhou para o marido, e ele sustentou o olhar com aquela calma cínica de quem nunca acreditou que teria consequências. A moça começou a chorar. Primeiro baixinho, depois com um soluço que sacudia os ombros.
— Mãe… a senhora não pode fazer isso. Não estraga meu casamento.
— Teu o quê?
— Meu casamento. Nós temos dois filhos pra criar. O que eu vou fazer sozinha?
Irene sentiu o chão se abrir. Quatro anos atrás, quando ela voltou da Itália bem no começo da pandemia, já tinha notado os sinais. Na época, Ana Paula estava casada havia dois anos e já tinha o João Pedro recém-nascido. Irene chegou do aeroporto direto para um jantar na casa deles e viu a filha rodando em volta da mesa igual mariposa em volta da luz.
— Marcelo, você quer mais suco? Tá bom o tempero do frango? Você prefere com mais limão? Tá confortável aí? Quer uma almofada nas costas?
E ele, largado na cadeira como um rei na corte, respondia de boca cheia:
— Podia ter caprichado mais no frango. Tá meio seco, né? A Lu, mulher do Fábio, fez um frango outro dia que tava no ponto. Você precisa aprender com ela.
Irene quase deixou cair o garfo. Olhou para o genro — aquele menino de trinta e poucos anos que nunca tinha tido emprego fixo, que vivia de “projetos” que nunca vingavam, que morava na casa que ela comprou, que dirigia o carro que Ana Paula pagava. E tinha a ousadia de falar assim na frente dela.
— Você sempre trata ela desse jeito? — a pergunta saiu mais fria do que ela queria.
— Mãe, pelo amor de Deus…
— Tratar como? Eu tô ajudando ela a ser melhor. Ó, dona Irene, a senhora não acha que ela se largou depois das crianças? Tem umas mulheres que têm três filhos e continuam lindas. Pra que serve uma esposa que não se cuida pro marido? Aí depois o homem procura fora e ela não sabe por quê.
Naquela noite, Irene chamou a filha de canto na cozinha.
— É sempre assim, Ana?
— Ele só quer me ajudar, mãe. E ele tem razão, eu engordei muito depois da Marina.
— Minha filha, você nunca foi magra. Isso é genético. Lembra da sua avó? Da sua tia? Ele casou com você sabendo disso. Isso não é desculpa pra te humilhar na frente da sua própria mãe.
— A senhora não entende. Eu amo ele.
— Amar o quê, Ana? O que ele tem?
Ela não respondeu. Só enxugou os olhos com o pano de prato e voltou pra sala, onde Marcelo já gritava que queria o café.
Nos meses seguintes, Irene mordeu a língua até sangrar. Viu a filha fazer dieta maluca, se matar de exercício, andar sempre arrumada e maquiada dentro de casa das sete da manhã às onze da noite. Viu ela correndo com as crianças sozinha em toda consulta, toda reunião de escola, toda festinha de aniversário, enquanto Marcelo “precisava de um tempo pra ele”. Viu ela esvaziando o olhar aos poucos, aquele brilho que a Ana Paula tinha desde menina indo embora como água pelo ralo.
E agora, de pé naquela sala cheirando a goiabada e perfume barato de mulher, Irene viu a filha implorando pelo casamento quebrado como se fosse a única coisa que a mantivesse viva.
— Você não vai perdoar ele de novo — a voz de Irene saiu num sussurro que era mais ameaçador do que todos os gritos anteriores.
— Mãe, a senhora não manda na minha vida. Marcelo, você quer que eu faça um café pra gente conversar?
Mas Marcelo já tinha pegado a chave do carro. Passou pela sogra sem olhar na cara dela, deu um tapinha no ombro de Ana Paula e disse:
— Depois a gente resolve. Tô sem cabeça pra drama agora.
Porta batendo. O som ecoou no corredor do prédio.
Ana Paula desabou no sofá. Irene se sentou ao lado dela, passou a mão nos cabelos da filha como fazia quando ela tinha febre na infância.
— Filha, ele não vai mudar. Ele não te respeita. Ele nunca te respeitou.
— E o que eu faço? Vou criar dois filhos sozinha? Quem vai querer uma mulher com duas crianças? O senhorio vai botar a gente na rua se eu não pagar o aluguel mês que vem e o Marcelo que banca a maior parte.
— Eu banco. Eu sempre banquei o que vocês precisaram. Volta pra casa, leva os meninos. Recupera tua vida.
— A senhora não entende.
Ela entendeu. Entendeu que a filha não ia largar o osso sozinha. E ali, naquele instante, Irene tomou a decisão.
Não foi impulso de sogra nervosa. Foi cálculo. Foi frio.
Na guerra seguinte, numa terça-feira de manhã, ela se lembrou de uma conversa que ouvira havia mais de um ano, numa festa da família do Marcelo. Um tio dele, bêbado, contando vantagem: “O Marcelo é esperto, ó. Serviu no batalhão de carros blindados, aprendeu tudo de tanque. Agora tão chamando a reserva técnica e ele nada, quietinho. Fez um esquema lá, sumiu do cadastro.”
Irene nunca esqueceu essa frase. Na época, guardou como se guarda uma faca no bolso — sem saber exatamente para quê, mas certa de que um dia serviria.
Naquela terça-feira, ela foi até a junta militar de Niterói.
— Bom dia. Eu quero fazer uma denúncia.
O sargento que atendeu ajeitou os óculos e olhou para aquela senhora de sessenta e oito anos, cabelo preso num coque baixo, bolsa de couro legítimo e uma expressão que não admitia ser contrariada.
— Que tipo de denúncia, minha senhora?
— Tem um rapaz, Marcelo Vieira de Souza. Serviu no batalhão de blindados. Tanque. Ele tá foragido do cadastro de reserva e não se apresentou nas últimas convocações. Eu posso dar o endereço, o telefone, o nome dos pais, o que o senhor precisar.
O sargento anotou tudinho. Na quinta-feira, duas viaturas pararam na porta do prédio em Pendotiba. Marcelo foi levado para a inspeção médica. Na sexta, já estava incorporado.
O telefone de Irene tocou às nove da noite. A voz de Ana Paula vinha cortada pelo choro, mas era um choro diferente — não aquele choro murcho de mulher derrotada, mas um choro raivoso, quase infantil, como quando a filha tinha oito anos e não aceitavam sua opinião na brincadeira.
— Mãe, a senhora entregou o Marcelo? A senhora foi na junta e entregou meu marido?
— Fui.
— A senhora ficou maluca? Ele vai ser mandado pra linha de frente! Ele pode morrer! E as crianças, mãe? Como a senhora faz isso com os seus netos?
— Os seus filhos vão crescer com uma mãe inteira, não com uma escrava de homem que não presta. Ele vai ser mais útil lá do que foi aqui nos últimos sete anos.
— A senhora não tinha esse direito!
— Eu tinha o direito de salvar minha filha. Porque você sozinha não ia se salvar nunca.
Ana Paula desligou o telefone na cara dela.
Durante três semanas, silêncio absoluto. Irene mandava mensagem para os netos, mas as respostas vinham secas. Não atendia as chamadas de vídeo. A ausência doía no peito, mas Irene repetia para si mesma a decisão que tomou todas as noites, em frente ao porta-retrato da filha no dia da formatura da faculdade.
“Prefiro ela com raiva e viva do que casada e morta por dentro.”
No vigésimo segundo dia, a campainha tocou.
Eram nove da manhã. Irene abriu a porta e encontrou Ana Paula parada na soleira, com os dois meninos, uma mala em cada mão. Estava sem maquiagem. Usava uma camiseta velha de banda que Irene lembrava de ter comprado para ela no aniversário de dezoito anos. O cabelo, preso de qualquer jeito num rabo de cavalo torto. E os olhos — os olhos estavam inchados, mas vivos.
— Mãe… dá pra gente ficar aqui um tempo?
Irene abriu a porta completamente. Não disse “eu avisei”. Não disse “demorou”. Só afastou o corpo para o lado e deixou os netos entrarem correndo, já gritando pela vovó e perguntando se tinha bolo na cozinha.
Ana Paula ficou parada no hall, abraçando a si mesma.
— Ele mandou uma carta. Disse que quer o divórcio quando voltar. Disse que a senhora estragou tudo. A família dele tá me culpando.
— E você?
A filha respirou fundo. Olhou para dentro do apartamento, onde o João Pedro já tinha achado a caixa de brinquedos velhos que Irene guardava, e a Marina pedia água na cozinha com sua vozinha fina.
— Eu ainda tô com raiva. Mas eu não queria que você tivesse razão. E a senhora tinha.
Irene fechou a porta devagar. Passou o braço em volta dos ombros da filha e sentiu o corpo dela relaxar pela primeira vez em anos.
— Vem, vamos fazer um café. Depois você me conta tudo.
E enquanto a água fervia na chaleira e o cheiro de pão de queijo começava a tomar a cozinha, Irene olhou para a filha mexendo o açúcar na xícara e viu, no canto da boca dela, um quase sorriso que há muito tempo não aparecia. Pequenininho, tímido. Mas estava lá.
