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Meu pai deixou um carro amaldiçoado que nunca me deixou vender

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Era um Opala Comodoro 1979, azul metálico com faixas pretas no capô. Meu pai passou quinze anos montando e desmontando aquele motor 6 cilindros até deixar tudo no ponto. Morreu numa quarta-feira de chuva fina em Curitiba, dois dias depois de trocar os coxins do câmbio. O carro ficou parado na garagem por quase um ano, coberto com uma lona, enquanto eu pagava as dívidas do hospital. Depois resolvi anunciar. Precisava do dinheiro pra dar entrada num apartamento, coisa de adulta, sabe?

O primeiro anúncio eu postei numa tarde de abril, dessas que em Curitiba parece que o céu engoliu o sol. Liguei o Opala pra tirar foto com o motor roncando e ele pegou de primeira, macio. Botei no OLX com o preço justo, um pouco abaixo da tabela porque queria vender rápido. Em menos de meia hora tinha três mensagens. Escolhi o mais animado, um rapaz chamado Diego, de Ponta Grossa. Disse que vinha no sábado ver o carro, que era apaixonado por Opala e que já estava juntando dinheiro fazia tempo.

Sábado de manhã fui até a garagem tirar a lona e dar uma última conferida. O carro simplesmente não pegava. O motor girava, girava e nada. Vi a mangueira do filtro de combustível rachada, uma marquinha fina que eu não tinha notado. Liguei pro Seu José, o mecânico amigo do meu pai que tinha a oficina lá na Avenida República Argentina. Ele chegou com uma Kombi velha, trocou a peça ali mesmo, resmungou que o etanol tava corroendo tudo. O Diego já estava entrando na rua quando o carro finalmente funcionou. Ele olhou, andou, gostou. Mas na hora de fechar negócio, reparou que o conta-giros não estava funcionando e desistiu. Disse que era carro maquiado, que eu tava escondendo problema. O conta-giros tinha queimado no exato instante em que ele ligou o motor. O Seu José só balançou a cabeça e saiu sem cobrar nada.

Tirei o anúncio, botei um conta-giros novo — original, garimpado num ferro-velho no Boqueirão. Esperei umas semanas. Postei de novo, fotos bonitas com o ipê roxo do vizinho florescendo ao fundo. Dessa vez apareceu um senhor de Santa Catarina, um colecionador que queria o carro pra exposição. Combinamos dele vir na sexta, depois do almoço. Na quinta à noite, voltei do trabalho no posto de saúde da CIC e passei na garagem pra ligar o motor. O radiador tinha estourado uma junta. Água verde escorrendo pelo chão, aquele cheiro doce de aditivo. O carro tava frio, parado há dias. Como pode?

Isso foi se repetindo. Anunciei, aparecia comprador, e alguma peça dava pane — bobina, alternador, até o cabo da embreagem que simplesmente partiu quando uma moça pisou no pedal. Comecei a achar que o Opala tinha algum tipo de mau-olhado. Meu pai, nos últimos anos, só falava nele como se fosse uma pessoa: “A azulona hoje tá preguiçosa”, “Ela merece um óleo mais grosso”. Eu ria, mas agora me pegava falando com ela do mesmo jeito. “Vai, vamos, só dessa vez, me ajuda.” E ela me deixava na mão.

A gota d’água foi o tal do comprador de São José dos Pinhais. Ele já tinha transferido o dinheiro pra conta, tava no caminho com um guincho pra levar o carro e eu ainda tava de joelhos na calçada tentando entender por que o motor engasgava toda vez que passava de três mil giros. O rapaz chegou, viu minha cara de desespero, a ferramenta espalhada, e disse com uma calma irritante: “Tranquilo, moça, vou esperar.” Almoçou um pastel de frango com caldo de cana no boteco da esquina enquanto eu abria o carburador sem a menor ideia do que tava fazendo. A bóia tava travada, um grão de sujeira no lugar errado. Limpei, montei, o carro acelerou liso. Mas o moço, quando voltou, reparou que o escapamento estava soltando uma fumaça preta tipo diesel e desistiu na hora. “Isso aí tá queimando óleo, não vou arriscar.” Fui dormir com o cheiro de gasolina nos dedos e uma vontade brutal de jogar chave inglesa na televisão.

Nessa época, eu já tinha gasto mais de seis mil reais em oficina, fora o que deixei de ganhar por desmarcar plantão. O Seu José aparecia de vez em quando, sempre com desculpa de que ia ver o jogo do Coritiba na TV da sala ou que trouxe mamão da chácara. Ficava olhando pro Opala e dizia umas frases enigmáticas. Teu pai contava que esse carro tem alma, não é dessas almas que assombram, é alma que protege. Ele só vai funcionar direitinho no dia que tu resolver se é dona ou vendedora.”

Uma terça-feira eu voltei pra casa e encontrei a janela da garagem entreaberta e uma jabuticaba madura caída em cima do capô. A árvore do vizinho pendia pro meu lado. A fruta tava esmagada, deixando um borrão escuro na pintura azul. Fiquei ali uns cinco minutos encarando aquilo. Peguei o pano, limpei com cuidado, sentindo cada micrometro da lataria. Foi a primeira vez que passei a mão no carro sem pressa, como meu pai fazia quando tirava o pó do painel num sábado à tarde.

No dia seguinte liguei pro Seu José e perguntei se podia levar o Opala na oficina pra uma geral completa. Não queria mais vender. Queria entender o que meu pai tinha feito ali. Ele aceitou na hora, com a empolgação de um menino que ganha sorvete.

Passamos três sábados seguidos desmontando e remontando cada canto do motor. Eu aprendi a regular válvula, a sincronizar carburador, a identificar vazamento por compressão. O Seu José me ensinava e contava histórias ao mesmo tempo. Que meu pai, certa vez, rebocou um ônibus quebrado com aquele Opala só pra provar que o motor aguentava. Que a azulona foi o carro que levou minha mãe pra maternidade no dia do meu nascimento, num trânsito parado da BR-277, desviando por dentro da ciclovia porque não havia outra saída. E que meu pai nunca quis vender o carro nem nos piores apertos, porque ele dizia que era o pedaço de ferro onde ele tinha depositado toda a potência que a vida não deixava usar.

Na última tarde, montamos o distribuidor novo — o antigo tinha uma micro rachadura que falhava em dias úmidos e deixava a faísca escapar. Depois de apertar o último parafuso, o Seu José me olhou e falou: Dá partida.” Eu sentei no banco de courvin preto, virei a chave e o motor acordou com um ronco seco, firme, que vibrou até na sola do pé. Acelerei. O ponteiro do conta-giros subiu redondo. Saí da oficina, passei pela frente do bar do Valdir e entrei na via rápida. O Opala respondeu como nunca, puxando quinta marcha sem engasgo, o escapamento roncando um trovão macio.

Peguei a BR-277 sentido litoral. As placas verdes de Paranaguá piscavam na beira da estrada. O sol tava baixo, e o asfalto molhado do sereno começou a refletir as lanternas. Não pensei em apartamento. Não pensei em dívidas. Só pensava naquele banco que meu pai gastou no formato do corpo dele, no pomar com cheiro de couro e óleo, no jeito que o volante vibrava exatamente igual às mãos dele.

Parei num posto Ipiranga, enchi o tanque com etanol e comprei uma coxinha e um guaraná. Enquanto esperava o troco, encostei na porta e olhei pro carro parado sob a luz amarela do toldo. Um rapaz se aproximou, um moleque de seus vinte e poucos anos, camiseta do Nirvana e tatuagem de carburador no braço. Ele deu a volta, admirou o Opala com respeito de quem sabe o que tá vendo.

— Vende? — perguntou, com um sorriso de quem já espera o “não”.

Eu terminei de tomar o guaraná, bati a latinha no lixo e abri a porta. O isqueiro ainda tem o cheiro do cigarro do meu pai, mesmo depois de tantos anos.

— Só se for pra alguém que entenda de verdade — respondi, e dei partida. O motor urrou e o cofre estremeceu de leve, como se estivesse concordando.

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