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# A Oficina do Ricardo

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Dora não bateu na porta. Girou a chave que carregava numa correntinha havia sete anos e entrou na oficina como se ainda fosse dela.

— Mãe, agora quem decide aqui sou eu — disse Marcos, sem tirar os olhos da nota fiscal que segurava na mão. — O pai deixou tudo pra mim. Em cartório.

Do lado de fora da oficina, na Avenida Brasil, garoava, e do prédio vizinho vinha cheiro de cebola refogada — alguém fazia almoço uma e meia da tarde, no meio da semana, como se o tempo corresse normal pras outras pessoas. Pra Dora, tinha parado três semanas atrás, no dia do enterro de Ricardo.

Oficina mecânica no bairro de Bangu, dois elevadores hidráulicos, um compressor que tossia feito fumante antigo — isso era tudo que o marido tinha deixado. Trinta e dois anos de casamento, vinte e dois deles no mesmo endereço, com a mesma cliente taxista que aparecia todo mês pra trocar óleo e sempre perguntava se dona Dora tinha feito de novo aquele bolo de fubá.

— Em cartório — repetiu Dora. — E você sabe quem pagou o aluguel deste ponto quando seu pai ficou internado no Miguel Couto depois do infarto? Eu. Com a minha aposentadoria de professora. Quatrocentos reais por mês, durante quatro meses, pra não perder o contrato.

Marcos largou a nota fiscal. Tinha trinta e um anos e as mesmas rugas ao redor dos olhos que o pai tinha quando ficava nervoso.

— Isso foi uma obrigação sua como esposa. Agora eu tenho obrigações como dono. Cliente, INSS, financiamento do elevador novo. Não posso ficar de sentimentalismo.

— Sentimentalismo — ela repetiu baixinho, mais pra si mesma.

Saiu sem dizer mais nada, levando consigo apenas uma caneca escrita "O Melhor Mecânico do Rio", presente que ela mesma tinha comprado pro Ricardo no aniversário de cinquenta anos.

***

A coisa começou de verdade duas semanas antes, no cartório da Rua da Assembleia, no centro. O testamento era curto: a oficina, os equipamentos, os dois carros da empresa — tudo pro filho. Pra Dora ficou o apartamento em Bangu, onde os dois tinham morado, e uma conta poupança que, depois de pagar o enterro, tinha encolhido pra sete mil reais.

O tabelião, seu Vicente, um homem de mais de sessenta anos com bigode grisalho, olhou pra ela naquele dia com tanta compaixão que ela precisou virar o rosto pra janela.

— Dona Dora, a senhora tem direito à legítima — ele disse baixinho. — Mesmo que o testamento não mencione.

— Não vou processar meu próprio filho — ela respondeu.

Agora, três semanas depois, sentada na cozinha de Bangu com o chá esfriando, ela lembrou daquelas palavras. Na mesa tinha um jornal de dois dias atrás, aberto na página de classificados. A vizinha de baixo, dona Neide, tinha batido na porta de manhã perguntando se Dora não queria companhia — tinha ouvido pela parede alguém gritando na oficina uma semana antes, quando Marcos jogou fora as ferramentas velhas do pai como sucata.

— Ele jogou fora a esmerilhadeira do seu pai. Aquela de vinte anos — Dora contou pra dona Neide, sem saber direito por que estava dizendo aquilo.

— E você, Dorinha? O que vai fazer agora?

Não respondeu na hora. Levantou, lavou a caneca do Ricardo e colocou na prateleira, ao lado da foto do casamento.

***

A nora, Camila, apareceu sozinha, sem avisar, numa sexta-feira à tarde. Estava com o jaleco do trabalho — trabalhava como enfermeira num posto de saúde na Penha e claramente tinha vindo direto do plantão.

— O Marcos não sabe que eu vim aqui — disse, sentando à mesa da cozinha, sem tirar o casaco. — Ele tem medo de que a senhora entre com processo. Conversou com o advogado do financiamento, e o cara falou sobre a legítima e ele ficou apavorado.

— Não tenho a menor intenção de processar ninguém.

— Eu sei. Mas ele não sabe disso. — Camila brincava com a alça da bolsa. — Dona Dora, ele jogou fora aquelas ferramentas todas porque está com medo. Não é porque não liga. Ele só acha que, se deixar tudo do jeito que era, isso significa que ainda não é dono de verdade.

Dora serviu um chá pra ela, mesmo sem Camila ter pedido.

— E você, Camila, o que você quer?

— Que isso não acabe do jeito que acaba em tantas famílias. Que daqui a cinco anos os netos não deixem de conhecer a avó.

Essa frase ficou pairando no ar por mais tempo do que devia.

***

A cena decisiva aconteceu não na oficina nem em Bangu, mas na sala de espera do cartório da Rua da Assembleia, dez dias depois.

Dora chegou sozinha, com hora marcada pro meio-dia. Quando seu Vicente abriu a porta da sala, Marcos já estava lá dentro — suado, com uma pasta de documentos no colo, ainda de macacão de trabalho, que claramente tinha vestido direto da oficina.

— A mãe vai me processar? — perguntou, antes que alguém tivesse chance de se sentar.

— Não. — Dora colocou a bolsa na cadeira. — Vim assinar a renúncia da legítima.

Marcos ficou calado. O tabelião pegou a pasta de documentos, mas Dora levantou a mão.

— Antes de fazer isso, quero que você escute uma coisa. Seu pai deixou a oficina pra você porque acreditava que você ia cuidar dela melhor do que eu. Foi escolha dele e eu respeito isso. Mas o que você fez uma semana depois do enterro — jogar fora as ferramentas dele feito sucata, como se não valessem nada — isso foi escolha sua. Não do seu pai.

— Mãe, eu…

— Não terminei. — A voz dela não tremia. — A conta que sobrou do seu pai, sete mil reais, vou usar pra reformar o apartamento. Não pra oficina. Não vou te dar nem um centavo pro financiamento do elevador que você me pediu através da Camila semana passada. O que é meu, continua meu. O que é seu, continua seu. Abro mão da legítima porque não quero guerra por causa de ferro-velho. Mas não espere que eu vá bancar suas decisões daqui pra frente.

Assinou o documento com a caneta que o tabelião entregou. A mão não tremeu.

Marcos ficou sentado com a cabeça baixa, a pasta de documentos ainda no colo, sem abrir.

— Eu só queria que fosse meu — disse baixinho. — Que ninguém ficasse me dizendo como tocar a oficina.

— Agora é seu. Totalmente. — Dora se levantou, fechou o casaco. — E por isso agora você mesmo vai pagar por tudo que vier junto. Inclusive pelos erros.

***

Saiu do cartório na frente. Lá fora tinha parado de chover, as ruas do centro brilhavam de molhadas, e um ônibus passava fazendo barulho de motor velho.

Camila ligou de noite.

— O Marcos chorou dentro do carro — disse. — Primeira vez desde o enterro.

Dora estava sentada na mesa da cozinha, com um orçamento de reforma na frente — troca das janelas do apartamento em Bangu, seis mil e quinhentos reais, prazo de execução de seis semanas.

— Fala pra ele que domingo eu vou fazer bolo de fubá — respondeu. — Se ele quiser vir, a porta vai estar aberta. Mas a oficina já é problema dele.

Desligou o telefone e voltou pro orçamento. Lá fora, o cachorro do vizinho, um dachshund da família Oliveira do térreo, latia pro carteiro como todo dia àquela hora — exatamente igual, como se nada tivesse mudado.

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