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Onde Está Minha Filha?
Miguel continuava parado no mesmo lugar onde, cinco minutos antes, deixara Alice. Seus olhos percorriam o pátio da escola em todas as direções enquanto uma angústia paralisante crescia dentro do peito. Ela simplesmente desaparecera. Em meio a um mar de crianças uniformizadas, ele não conseguia encontrar a única que importava. Sua filha. "Não entendo", murmurava para si mesmo, o suor escorrendo pela testa. "Para onde ela foi? Eu me afastei literalmente por cinco minutos." Foi então que avistou Clara Regina, a professora do primeiro ano, alinhando os pequenos por altura. Ele disparou até ela, com o coração na boca.
— Cadê a minha filha?! A menina dos laços brancos. Ela devia estar com você. Não está em lugar nenhum!
Miguel estava tão transtornado que nem percebeu que gritava. A jovem professora deu um sobressalto, assustada.
— Desculpe… Quem exatamente? Todos os meus alunos parecem estar aqui.
— Minha filha! Alice! Ela estava bem ali. Foi você quem escalou a turma. Não lembra da gente?
— Sinto muito, são vinte e nove crianças na classe. E nos vimos apenas algumas vezes até agora.
— E daí?
— Ainda não gravei o rosto de todos os pais e responsáveis.
— E isso, na sua opinião, é desculpa?
— Escute, cada pai entregou o filho pessoalmente para mim hoje. Mas o senhor não. Só apareceu agora. Eu entendo a confusão do primeiro dia, mas… me diga uma coisa: por que o senhor deixou sua filha sozinha? Não está vendo quanta gente tem aqui hoje? Qualquer adulto se perderia, imagina uma criança de sete anos.
— Eu fui até a vendinha da esquina comprar uma água. Ela estava com sede. Voltei correndo, e ela já tinha sumido. Poxa, você é professora! Não devia estar vigiando as crianças? Onde eu vou procurar agora? Para onde ela pode ter ido?
Clara respirou fundo. Era seu primeiro dia de trabalho com sua primeira turma, e tudo aquilo soava como um pesadelo surreal.
— Calma, pai. Como sua filha estava vestida?
— Já falei: com laços brancos enormes no cabelo.
— Me perdoe, mas na minha turma tem quinze meninas e todas estão de laços brancos. É o uniforme da festa. Tem mais algum detalhe? A cor da mochila, por exemplo?
Miguel ficou em silêncio por um instante. O nervosismo era tanto que ele se embolou. De manhã ele ajudara Alice a prender os laços, ajeitara a gola da camisa, brigara para que ela não sujasse a meia-calça branca, mas naquele momento percebeu que mal conseguia descrevê-la.
— Outros detalhes… Sete anos, cabelos castanhos escuros e compridos, olhos de jabuticaba.
— Assim fica melhor. Lembra de mais alguma coisa?
— Bem… A mochila! Ela tem uma mochila amarela, toda estampada com uns patinhos. Ela ama bichos, por isso escolheu essa. Nenhuma outra criança pode ter uma igual. Meu Deus, para onde ela foi? — Miguel esfregava as mãos, o suor frio empapando a camisa.
— Não se desespere. Vamos procurar. Nós vamos encontrá-la, sim. Duvido que ela tenha saído do terreno da escola. Sua Alice deve estar por aqui. Me aguarde um momento, vou verificar a lista.
Clara Regina voltou depressa para o pelotão de crianças que se remexiam inquietas à espera da cerimônia. Contou cabecinhas uma por uma, examinou cada laço branco. Nenhum sinal de Alice. Perguntou a alguns coleguinhas, mas ninguém havia visto a menina da mochila amarela com patinhos. Passando a responsabilidade para a professora da turma ao lado, Clara correu de volta para Miguel, já esbaforida.
— Nenhum colega a viu. E para dentro do prédio ela não entrou. Isso significa que sua filha está no terreno externo. Vamos circular juntos. É mais rápido.
— Não era melhor acionar logo a polícia? — a voz dele tremia.
— Acho precipitado. Vamos encontrar a Alice — disse Clara, tentando soar firme, embora por dentro estivesse tão apavorada quanto ele. O peso da responsabilidade parecia uma bigorna em suas costas.
Pai e professora saíram em disparada pelo pátio. Vasculharam a quadra poliesportiva, deram a volta no parquinho, interrogaram o segurança do portão principal. Nada. Ninguém havia visto Alice passar.
— Sua filha não tem celular? — arriscou Clara enquanto se dirigiam ao fundo da escola, o único lugar ainda não vasculhado.
— Tem. Mas o aparelho está aqui no meu bolso. Não deu tempo de entregar a ela ainda…
— Que pena… — lamentou a professora.
— Tomara que não tenha acontecido nada… só isso, tomara que ela esteja bem — repetia Miguel como um mantra, a voz quase sumindo.
Clara não respondeu. A mente fervilhava de pensamentos sombrios, mas ela não ousava verbalizá-los.
Enquanto isso, no pátio dos fundos, uma menina de laços brancos e mochila amarela de patinhos estava embaixo de uma árvore frondosa, de cabeça erguida, conversando com um gatinho cinza empoleirado num galho fino. O bichano não conseguia descer e miava, aflito.
— Vamos, pequenininho, pula! — pedia Alice. — Eu te seguro. Juro que seguro.
O gato tentava se mover, mas o medo o paralisava. Ele fincava as garras na casca e soltava miados tão tristes que quase fizeram a menina chorar. Quando viu que sozinha não daria jeito, Alice decidiu ir atrás de ajuda. Mas, mal dobrou o canto da escola, deu de cara com o pai e a professora.
Eles pareciam ter visto um fantasma.
— Filha! Por onde você andou? — Miguel se jogou de joelhos no chão, agarrando-a. — Eu quase tive um troço! O que você está fazendo aqui atrás?
— Pai, você pode brigar comigo depois? Agora eu preciso muito da sua ajuda.
— Ajuda com o quê?
— Vem comigo.
Alice segurou a mão do pai com firmeza e, com a outra, puxou Clara Regina pelo pulso. Guiou os dois adultos confusos até o pé da árvore e apontou para o alto.
— É um gatinho. Lá em cima. Pai, tira ele de lá, por favor.
— Alice, você não quer me explicar como veio parar aqui? Onde eu pedi para você me esperar?
— Foi assim: eu estava quietinha perto do portão quando vi um cachorro grande correndo atrás desse gatinho. Eu corri junto. O gato subiu na árvore de susto, e o cachorro ficou latindo. Aí eu espantei o cachorro. Mas não consigo alcançar o gato.
— Você espantou um cachorrão sozinha? — Clara arregalou os olhos.
— Falei para ele que meu pai já ia chegar para ajudar ele a ir embora. E o cachorro foi. Mas o fofinho ainda está preso. Pai, tira ele! Não aguento mais ver ele chorando desse jeito — Alice bateu o pezinho impaciente.
Miguel olhou os galhos finos, coçou a cabeça e fez um cálculo rápido com seus mais de noventa quilos. Impossível. Mas a professora… magrinha, ágil. Ela dava conta.
— Por que você está me olhando assim? — Clara corou.
— Não vou subir. Não alcanço nem o primeiro galho.
— Eu te ajudo a alcançar — sorriu Miguel.
— De jeito nenhum!
— Por favor, professora! — Alice segurou a mão dela. — Olha o medo dele. E se cair?
Clara ergueu o olhar. O gatinho soltou um miado de cortar o coração, como se pedisse socorro.
— Tá bem — suspirou, olhando para Miguel. — Mas você promete que vai me segurar firme? Não quero parar no hospital hoje.
— Prometo. Confia em mim.
Clara se sentou nos ombros largos de Miguel. Ele a ergueu com uma força surpreendente. Ela se equilibrou, pôs os pés nos ombros dele, segurou-se num galho mais grosso com uma das mãos e esticou o corpo ao máximo, sob os olhares ansiosos do pai e da filha.
— Mais um pouco… quase lá! — incentivava Miguel.
O gatinho, primeiro assustado, recuou. Depois, criando coragem, deu um passo trêmulo em direção à mão da professora e…
— Conseguiu! Conseguiu, pai! — Alice bateu palmas, radiante. — Você é demais, Clara! Segura ela bem, pai!
Quando Clara Regina tocou o chão novamente, Alice já estendeu os braços. Apertou o bichano contra o peito, e ele ronronou, vibrando inteiro.
— Bom — Miguel sorriu, o alívio lavando sua alma —, estamos todos vivos e inteiros. Mas que susto você me deu, filha.
— Desculpa. Eu não queria sumir. Mas não dava para deixar ele aqui. Ele nunca ia conseguir descer.
Miguel balançou a cabeça. Aquele coração imenso era justamente o que ele mais amava nela.
— A gente pode ficar com ele? — Alice olhou suplicante para o pai.
— Depois dessa, acho difícil dizer não. Cuida dele enquanto vou pegar os livros. E nada de sumir. Não quero ter que procurar você e um gato.
Clara caiu na risada.
— Imagino a cara da sua mãe quando vocês chegarem em casa com esse visitante.
— Eu não tenho mãe… — Alice deu de ombros, apertando mais o bichano. — Mas queria muito ter.
— Ah, me desculpe, eu não sabia… — Clara levou a mão ao peito.
— Tudo bem — interveio Miguel. — Ela nos deixou há cinco anos. Foi embora para o exterior e nunca mais deu notícia. Nem para mim, nem para a Alice.
Um silêncio denso se instalou sob a árvore. Clara observou aquele homem grande, um pouco desajeitado, com olhos bondosos, e aquela pequena menina agarrada a um gato de rua. Algo quente e inesperado latejou em seu peito.
— Mas agora temos o Biscoito — anunciou Alice, cheia de certeza.
— Já deu nome para ele? — Miguel sorriu.
— Claro! Dá para viver sem nome?
***
Miguel sempre buscava Alice pessoalmente. Às vezes, trocava poucas palavras com Clara Regina; em outras, a conversa fluía até o pátio da escola ficar completamente vazio. Falavam sobre o progresso da menina, sobre os livros que ela devorava, sobre as trapalhadas do Biscoito no apartamento. Aos poucos, nem perceberam que o assunto já não era mais apenas a escola.
Numa tarde, depois que todas as crianças já haviam saído, Miguel parou na porta da sala com um buquê de margaridas e o rosto tenso. Clara o viu e sorriu, mas estranhou o presente.
— É para você — a voz dele saiu mais rouca que o normal. — E queria te fazer um convite. Na verdade, eu e a Alice queremos que você jante com a gente hoje. Nós três, juntos. O que me diz disso, Clara Regina?
A professora sentiu as orelhas queimarem de um jeito bobo. Pegou o buquê e o cheiro trouxe lembranças de casa, de bolo saindo do forno e de qualquer coisa que se parecesse com um novo começo.
— Tá bem. Eu topo — ela respondeu, simples assim.
E, exatamente um ano depois, foi assim que Clara respondeu quando Miguel a pediu em casamento.
No cartório, Alice segurava a mão da professora com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. A menina sorria sem parar, completamente paralisada de felicidade.
— Posso… Posso te chamar de mãe agora?
Os olhos de Clara se encheram de lágrimas.
— Se é isso que você quer do fundo do coração, pode. Para mim, essa palavra vai ser a mais preciosa do mundo.
Alice se jogou nos braços dela. Miguel assistia à cena encostado na parede, um sorriso bobo no rosto. Quem poderia prever que uma corrida atrás de uma garrafa d’água traria tanta reviravolta? Às vezes, milagres são assim: pequenos, cinzentos e miando num galho, esperando que alguém pare para salvá-los.
Lá no apartamento, em cima da almofada preferida, Biscoito espremia os olhos de sono. Não entendia nada de certidões ou alianças. Só sabia que a família dele, a sua matilha humana, estava prestes a cruzar a porta para nunca mais se soltar.
