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O Gato Riscado da Asa
Eu nunca fui de me meter na vida da Liudmila. Oito anos separados, cada um no seu canto. Mas quando a Asa me ligou chorando naquela manhã de quinta-feira, dizendo que não conseguia entrar no próprio apartamento, eu soube na hora que a mãe dela ia aparecer. E que ia sobrar pra mim.
Cheguei antes dela. Toquei a campainha três vezes. Nada. Bati. A porta abriu uma fresta e apareceu a cara da Jussara, aquela morena de unha postiça que eu tinha conhecido fazia dois meses num churrasco em Guarulhos. Ela segurava uma espátula de silicone como se fosse uma arma.
— Cadê a Asa? — perguntei.
— Foi pra faculdade, Vando. Entra, que eu fiz bife acebolado.
O cheiro de cebola frita invadia o corredor. O apartamento que a Liudmila tinha comprado pra filha — sessenta e dois metros quadrados na Vila Mariana, perto do metrô, chão de porcelanato claro — parecia cenário de feira livre. Minhas coisas espalhadas pelo sofá da sala. A nécessaire da Jussara aberta no balcão da cozinha. Um varal de sutiãs rosa esticado entre a janela e a estante de livros da Asa.
Fazia dois dias que a gente tinha se instalado. A Asa ficou sem graça de negar quando pedi as chaves emprestadas. "Só uns dias, filha, até eu me organizar." Ela sabia que eu tava sem lugar desde que o aluguel da pensão venceu. Sabia também que a mãe dela ia me matar. Mas não disse nada. No fim, me deu a cópia e foi dormir na república de uma amiga.
Naquele momento, às nove e meia da manhã, eu achava que dava pra contornar. Que a Liudmila ia gritar, espernear, e depois aceitar. Ela sempre foi assim. Bufa, ameaça, e no fim cede. Era assim quando a gente era casado. Por que seria diferente agora?
A porta estourou no batente sem nem bater. A Liudmila entrou como quem entra em reunião de conselho: coluna reta, sapato baixo, a bolsa pendurada no antebraço. Não tirou o casaco. Parou no meio da sala e olhou em volta, devagar, como quem faz inventário de prejuízo.
— Sente o cheiro, Vando. Cheiro de fritura na casa de uma menina de dezenove anos. Que bonito.
— Liudmila, eu posso explicar.
— Explica rápido, porque às dez e vinte eu tenho uma teleconferência e às onze eu recebo o representante da transportadora. Você tem exatamente três minutos.
Ela olhou pro varal de sutiãs. Puxou o celular da bolsa, abriu a câmera. Tirou uma foto. Depois outra do sofá coberto pelas minhas camisas. Uma terceira da cozinha, onde a Jussara tinha deixado a pia cheia de casca de cebola.
— Isso vai pro advogado que cuida da matrícula do imóvel. Só pra eu ter registrado como encontrei a propriedade da minha filha.
— Que advogado? Que advogado, mulher? Eu sou pai da menina! Tenho direito de estar aqui!
— Pai. — Ela soletrou a palavra como se fosse uma sigla que eu não compreendia. — Você sabe o CPF da Asa? Sabe o curso que ela faz? A menina passou três meses com uma bolsa no pé que você não viu porque estava em Porto Alegre atrás de uma tal de Malu.
A Jussara saiu da cozinha, enxugando a mão num pano de prato. Veio com aquele andar de dona do pedaço, que eu até achava charmoso, pra falar a verdade.
— Desculpa, mas quem é a senhora pra chegar aqui dando ordem?
A Liudmila nem piscou. Tirou uma pasta fina da bolsa, abriu, passou os olhos e disse:
— Eu sou a pessoa que pagou oito mil e seiscentos reais de IPTU atrasado desse imóvel. Sou a pessoa que assinou a procuração da compra. E sou a pessoa que vai trocar a fechadura assim que vocês descerem. O rapaz da chavearia está a caminho.
— A gente não vai descer.
— Vai sim.
Ela guardou a pasta. Deu três passos até a porta, escancarou e gritou pro corredor:
— Pode subir.
Eu ouvi o barulho do elevador. Porta abrindo. Passos pesados. Quando o sujeito dobrou o corredor, eu entendi que a conversa tinha acabado.
Um moreno de quase dois metros, jaqueta preta, cara de quem nunca precisou levantar a voz. O segurança dela. Ou motorista. Ou os dois. Homem de confiança, daqueles que a Liudmila contratou depois que a transportadora sofreu um assalto e ela decidiu que nunca mais andava desacompanhada.
— Esse é o Renato — disse ela, com uma calma que até me deu um negócio no estômago. — Ele vai acompanhar a retirada dos pertences. Vocês têm vinte minutos.
— Liudmila, vinte minutos? A gente acabou de chegar, não dá tempo de…
— Dezenove.
A Jussara me puxou pelo braço, os olhos arregalados.
— Vando, ela não pode fazer isso. Sua filha falou que a gente podia ficar. Ela falou!
— A Asa tem dezenove anos, boneca — cortou a Liudmila. — Ela não pode autorizar porra nenhuma. A imobiliária ainda não terminou a análise da documentação do ITBI, e o imóvel está em nome da compradora, que sou eu. Então, tecnicamente, vocês estão na minha casa.
Eu fiquei parado, segurando uma meia que tinha tirado do sofá. A ficha demorou a cair: a mulher não tinha vindo brigar. Tinha vindo fazer gestão de condomínio. Eu era o problema logístico da manhã dela.
— Você não pode tocar nas minhas coisas — eu tentei, já sem convicção.
— O Renato não toca em nada. Ele só observa. E se alguma coisa da minha filha for levada por engano, ele me avisa. Na dúvida, a gente chama a polícia. O boletim de ocorrência já foi aberto às oito e quarenta e três. Número O-A-TC-2025-0047132.
O BO. Ela tinha registrado um boletim de ocorrência contra mim. Antes de chegar. Antes de qualquer conversa.
A Jussara começou a choramingar, dizendo que eu tinha prometido que ia dar tudo certo, que a gente ia morar num lugar com sacada e academia. Que ela nunca mais ia ter que dividir banheiro com desconhecido.
— Só dezoito minutos, gente — disse a Liudmila, batendo a unha no vidro do relógio.
Eu empacotei minha vida em três sacolas de supermercado. A Jussara levou a nécessaire, dois pares de sapato e um liquidificador que eu tinha jurado que era meu — mas que, pensando bem, acho que era da Asa.
Na saída, a Liudmila me chamou pelo nome. Eu me virei, com a sacola na mão, o orgulho do tamanho de um grão de arroz.
— A Asa mandou isso pra mim ontem à noite.
Ela me mostrou o celular. Era um áudio da minha filha. A voz baixinha, de quem acabou de chorar:
"Mãe, o pai tá aqui com uma mulher. Eu não sei o que fazer. A chave era minha, eu não queria dar. Mas ele disse que eu tava abandonando ele. Mãe, vem."
A Liudmila guardou o celular.
— Você vai falar com a sua filha hoje. Vai pedir desculpa. Não pra mim. Pra ela. E vai pagar o conserto da torneira da cozinha, que você quebrou e colou com fita isolante.
— Setecentos e quarenta reais? — eu perguntei, sem nem saber por que perguntei o valor.
— Setecentos e quarenta reais. O hidráulico passa lá às duas.
Ela fechou a porta sem se despedir. Eu desci as escadas, porque o elevador tava demorando e eu não queria mais olhar pra cara do Renato.
Faz seis meses isso. A Jussara me largou no dia em que o dinheiro do auxílio acabou — ela saiu pra comprar um pote de açaí e não voltou. Eu fiquei na pensão de novo, a mesma de antes, com a mesma infiltração no teto. A Asa me visita de vez em quando, sempre num sábado à tarde, sempre com pressa.
O apartamento da Vila Mariana tá lindo. Ela me mandou uma foto outro dia: a estante nova, uma cama box, um gato riscado que arranha o sofá. A mãe dela pagou tudo, claro. Eu comento que um dia quero ver, e a Asa desconversa.
Semana passada eu passei na frente do prédio. Foi sem querer. Quer dizer, eu peguei o ônibus errado de propósito. Fiquei do outro lado da rua, olhando as janelas do oitavo andar. As cortinas tinham mudado. Eram mais claras.
Na mesma hora o celular apitou. Era a Liudmila. A gente não se falava desde o dia da expulsão. A mensagem era curta:
"A Asa me contou que você esteve na frente do prédio. Não faça isso de novo. Se quiser ver sua filha, liga antes. Se quiser ser pai, paga os atrasados. E se quiser me encher a paciência, o Renato continua prestando serviço pra mim."
Apaguei a mensagem. Depois dobrei a esquina, comprei um pastel na feira e voltei pra pensão.
Nunca mais apareci por lá. De vez em quando, olho a foto que a Asa mandou. O gato riscado, o sofá novo. Fico imaginando se um dia ela vai me deixar entrar, nem que seja pra tomar um café e ver a vista da sacada.
Mas aí eu lembro do áudio. Da voz dela chorando. E do número do boletim de ocorrência, que a Liudmila recitou de cor, como quem cita um protocolo.
Eu pago os setecentos e quarenta reais todo mês. Em parcelas de cento e oitenta e cinco. A transferência sai da minha conta no dia cinco.
Na dúvida, é o que eu posso fazer.
