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Rosana e a Vistoria da Régua Retrátil

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Trabalho como corretora de imóveis em Curitiba desde 2011, e no meu ofício a gente aprende a reconhecer, só de entrar numa sala, quem é o dono de verdade e quem só está de passagem. Fui chamada naquela tarde de julho — um frio seco, daqueles que fazem a gente segurar a caneca de chimarrão com as duas mãos — porque a proprietária, Marisa, queria uma avaliação do apartamento antes de decidir se ia vender ou alugar. Ela tinha me pedido pelo WhatsApp: "vem antes das cinco, tenho compromisso depois". Cheguei às quatro e vinte e três, e a cena que encontrei não tinha nada a ver com avaliação de imóvel.

Marisa tinha trinta e nove anos, era analista de sistemas, trabalhava em home office desde a pandemia. O apartamento era dela desde 2016, dois quartos, na Vila Izabel, comprado sozinha, antes de conhecer o marido. Casaram em 2020. O marido, Fábio, era representante comercial de uma distribuidora de autopeças, e desde que ela abriu a porta pra mim eu senti aquele clima de gente que discutiu cinco minutos antes e ainda não terminou.

Fábio estava na sala com uma régua retrátil daquelas amarelas de trena, medindo a parede perto da estante. A sogra dele — quer dizer, a mãe dele —, dona Terezinha, estava sentada no sofá anotando números num pedacinho de papel de pão que devia ter vindo da padaria da esquina. Tinha um cachorrinho, um vira-lata pequeno chamado Bolinha, que ficava rodeando as pernas da dona Terezinha esperando alguma migalha do biscoito que ela mastigava.

— Ah, é a corretora — disse Fábio, sem parar de medir. — Pode ficar, é rapidinho.

Rapidinho não foi. Fiquei parada perto da porta da cozinha, com minha pasta debaixo do braço, sem saber bem se devia entrar ou esperar lá fora. Dona Terezinha levantou os olhos do papel e falou pra mim, como se eu já fizesse parte da conversa:

— A senhora acha que essa cristaleira minha entra ali no canto? Uns um metro e oitenta ela tem.

Eu não soube responder. Olhei pra Marisa, que estava encostada no batente da porta com os braços cruzados, o rosto virado pra janela. Foi ela quem respondeu, num tom seco:

— Não vai precisar medir nada, dona Terezinha. Esse apartamento é meu.

— É, mas depois da separação o Fábio fica aqui, eu vou morar com ele — disse a sogra, tranquila, como quem explica uma coisa óbvia. — Vou alugar minha casinha lá do Boqueirão. Tá parada, só dando despesa.

Eu já tinha ouvido de tudo em quinze anos de profissão — herança disputada, ex-marido que trocava a fechadura escondido, sogra que aparecia com pedreiro sem avisar — mas aquela naturalidade com que os dois falavam do apartamento da Marisa, na frente dela, me deixou sem jeito. Fábio nem sequer olhou pra esposa quando falou:

— A Marisa vai achar um lugar menor pra ela. Trabalha de casa, não tem essa exigência de ficar no mesmo bairro que eu tenho, por causa da matriz.

— E o Bolinha? — perguntei, só pra quebrar o silêncio, apontando pro cachorro que agora lambia a mão da dona Terezinha.

— Bolinha fica comigo — respondeu Fábio, meio impaciente, como se a pergunta fosse boba. — Ele já é acostumado com o prédio.

Marisa se afastou do batente e foi até a mesa da sala, onde tinha uma pasta azul, dessas de plástico com elástico, que eu reconheci de longe — é a pasta que todo corretor pede pro cliente separar: escritura, matrícula atualizada, IPTU. Ela abriu a pasta, tirou um papel e leu em voz alta, sem gritar, num tom quase de quem lê edital:

— Escritura registrada em nome de Marisa Andrade Klein, matrícula 48.712, Cartório do 9º Ofício de Registro de Imóveis de Curitiba. Comprado em março de 2016, financiamento pago em outubro de 2021. Cinco anos de parcela, sozinha, antes do casamento.

Fábio baixou a régua. — Ninguém tá dizendo que não é seu.

— Então por que vocês estão medindo minha parede pra colocar a cristaleira da sua mãe?

Foi aí que dona Terezinha se levantou, ainda com Bolinha atrás dela, e falou num tom conciliador, esse tipo de conciliação que na verdade é uma cobrança:

— Ninguém tá tirando nada de ninguém, minha filha. Vocês vão se separar mesmo, é melhor resolver com cabeça fria. O Fábio já tá acostumado aqui, mercado, farmácia, tudo perto. Você trabalha em casa, pode morar em qualquer lugar de Curitiba.

Marisa fechou a pasta com um clique seco do elástico. — Curioso a senhora falar de cabeça fria enquanto mede móvel pro apartamento que é meu.

Fiquei ali, encostada, fingindo olhar as anotações que tinha trazido — metragem, valor de mercado do metro quadrado na Vila Izabel, coisa de trabalho mesmo — mas prestando atenção em cada palavra. Minha função ali tinha virado zero relação com avaliação imobiliária. Eu tava, sem querer, testemunhando o momento em que aquela mulher decidiu parar de aceitar o que os outros dois já tinham decidido por ela.

— Deixa eu te fazer uma pergunta, Fábio — disse Marisa, e a voz dela não subiu de tom, mas ficou mais firme, tipo aquele jeito de quem já ensaiou a frase na cabeça várias vezes antes de dizer. — Você tem nome em algum imóvel?

— Você sabe que não.

— Então explica pra mim por que você fica e eu saio.

— Porque eu moro aqui há quatro anos, Marisa. Isso é a minha vida também.

— Você mora aqui porque eu deixei você morar aqui. — Ela pegou o celular na bancada da cozinha, abriu o aplicativo do banco, virou a tela pra mim de propósito, acho que só pra ter uma testemunha de que não estava blefando. — Sabe quanto eu paguei de entrada nesse apartamento? Sessenta e dois mil reais, em 2016, juntando cada centavo que ganhei fazendo hora extra na antiga empresa. Sabe quantos anos eu paguei financiamento sozinha antes de você aparecer? Três anos.

Dona Terezinha tentou emendar: — Ninguém tá negando seu esforço, mas…

— Não tem "mas", dona Terezinha. — Marisa virou pra ela, ainda sem gritar. — A senhora quer alugar a casa do Boqueirão. Ótimo, é direito da senhora. Mas não vai ser aqui que a senhora vai morar. E o Fábio não vai ficar num apartamento que não é dele enquanto eu procuro lugar pra morar sozinha, depois de pagar sozinha.

Fábio deixou a régua retrátil em cima da estante com um baque. — Então o que você quer, Marisa? Que eu saia de casa de mala e cuia?

— Quero que você saia da minha casa, sim. Com as coisas que trouxe quando casou. O resto fica.

Foi nesse instante que Bolinha, sentindo a tensão subir, resolveu latir pra ninguém, só pro vazio da sala, e por um segundo todo mundo ficou olhando pro cachorro em vez de se olhar. Marisa se abaixou, deu um carinho rápido nele — acho que foi o único gesto suave dela naquela tarde toda — e disse baixinho: "Você fica comigo, seu chato", antes de se levantar de novo com o rosto já fechado outra vez.

Fábio ficou uns bons dez segundos calado, olhando pro chão, e depois falou, num tom mais baixo, quase sem convicção:

— Isso vai demorar. Você vai ter que entrar com ação, advogado, tudo.

— Eu já entrei com a ação. Semana passada. — Marisa abriu a pasta de novo e tirou um comprovante de protocolo, um papel timbrado que eu reconheci como sendo do Fórum Central de Curitiba, na Rua Doutor Faivre. — Pedido de partilha de bens com reconhecimento de bem particular incomunicável. Meu advogado disse que, como é anterior ao casamento e financiado antes de casar, não entra em partilha nenhuma. A senhora Terezinha pode alugar a casa dela à vontade, é direito da senhora. Só não vai ser aqui que vocês dois vão morar.

Dona Terezinha ficou vermelha, catou a bolsa e o pedacinho de papel de pão com as medidas riscadas, e falou, num fio de voz:

— Eu só vim ajudar a organizar.

— A senhora veio medir parede pra cristaleira numa casa que não é sua, dona Terezinha. Isso não é ajudar, é se instalar.

Ninguém respondeu. Fábio pegou a régua retrátil de cima da estante, guardou na caixa de ferramentas que tinha trazido — e aquilo, pra mim, foi o gesto mais eloquente da tarde: ele guardando de volta a ferramenta que tinha usado pra medir um espaço que nunca chegou a ser dele. Dona Terezinha saiu primeiro, sem se despedir, e Bolinha ficou parado no meio da sala, olhando pra porta se fechar, sem saber ainda que, dali pra frente, ia continuar morando exatamente onde já morava.

Fábio ainda ficou mais uns dez minutos, catando algumas coisas — um carregador, uns CDs antigos de rock que ele guardava numa caixa de sapato — e saiu sem falar muito. Marisa fechou a porta, encostou a testa nela por um segundo, e depois se virou pra mim, meio sem jeito, como se lembrasse que eu ainda estava lá parada com minha pasta.

— Desculpa por isso — disse ela, catando um copo d'água na cozinha. — Vamos à avaliação mesmo?

— Vamos — respondi, abrindo minha pasta, tentando voltar ao normal. — Você ainda quer vender ou só queria saber o valor por curiosidade?

Ela pensou um pouco, olhando pra estante vazia do canto onde a cristaleira da sogra ia entrar.

— Quero saber o valor. Mas acho que vou ficar. Já pago aqui há dez anos. Não vou sair agora que finalmente é só meu de verdade.

Fiz as medições, anotei os números, entreguei minha proposta de avaliação uma semana depois. Ela nunca colocou o apartamento à venda. Encontrei ela outro dia no mercado da Vila Izabel, sozinha, com o Bolinha na coleira esperando do lado de fora, e ela só sorriu de canto de boca e falou "ainda moro lá, sabia?" antes de entrar na fila do caixa.

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