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Passagem Só de Ida

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— Seu filho não precisa de praia, Renato. Ele fica na casa da minha irmã em Curitiba e pronto. Minha pressão não aguenta outro inverno úmido aqui em São Paulo.

Larissa ouviu a frase do marido ecoar pela sala enquanto ele arrastava a mala de rodinha até a porta. Ela estava na cozinha, passando um café que ninguém pediu, olhando para o vapor subir da garrafa térmica como se aquilo fosse a coisa mais importante do mundo.

— Larissa, você vai ficar aí muda? — Renato entrou na cozinha limpando as mãos na calça jeans, irritado. — Já te expliquei. A viagem para Porto de Galinhas precisa ser sem o Léo. Minha mãe está com artrose avançada, o reumatologista disse que água salgada e sol fazem milagre. Comprei três passagens, mas não dava para pagar quatro. Fiz um esforço desgraçado, parcelei o cartão em dez vezes.

— Eu ouvi, Renato. — Larissa colocou a garrafa sobre a bancada de granito, o som do vidro batendo na pedra fazendo um clique seco.

— Ouviu, ouviu… — ele deu um chute no carrinho do Léo que estava largado no meio do caminho. A BMW de controle remoto bateu no rodapé e o retrovisor de plástico voou longe. — Você fica com essa cara de mártir e eu me sinto um lixo. Mas é minha mãe, pô. Ela me criou sozinha, passou fome para eu estudar. Acha justo ela morrer sem nunca ter visto o mar azul do Nordeste? O Léo tem seis anos. Daqui a dois meses ele nem vai lembrar que perdeu umas férias. E ficar em Curitiba com a tia vai ser ótimo: ar puro, araucária, pinhão. Criança gosta é disso.

Larissa segurou a respiração por dois segundos. Quinze dias atrás, ela estava pagando uma conta de luz no celular de Renato quando pipocou uma notificação do aplicativo da companhia aérea. “Alteração de passageiro confirmada. Bem-vinda a bordo, dona Valdirene”. Ela não brigou. Só tirou um print da tela, enviou para o próprio e-mail e apagou a mensagem do histórico dele. Depois foi até a sala, sentou no sofá e ficou vendo a chuva lavar a varanda por quarenta minutos antes de levantar e pegar sua própria maleta de documentos.

— Renato, nós combinamos diferente. — Ela falou aquilo sem alterar o tom, o que sempre deixava o marido mais nervoso do que qualquer grito. — Juntamos dinheiro por um ano. Lembra do pote de sorvete em cima da geladeira? Cada moeda, cada nota de vinte que sobrava do mercado. O Léo fez um calendário com um mapa do Brasil e todo santo dia riscava um quadradinho. Na escola, disse que ia ver o mar pela primeira vez.

— Ele supera! — A voz cortante veio do corredor. Dona Valdirene apareceu na porta da cozinha com um vestido estampado de hibiscos, os lábios pintados de coral e um terço de prata enrolado no pulso. Ninguém que olhasse para ela diria que era uma senhora frágil precisando de tratamento médico. Tinha mais jeito de síndica vistoriando obra. — Renatinho está certíssimo. Criança em praia é só trabalho: passa protetor, não pode comer areia, perde o chinelo, toda hora quer sorvete. Aí o descanso de vocês vai para o beleléu. Ele passou o ano inteiro se matando na oficina mecânica, Larissinha. Quem sustenta essa casa é ele. Precisa relaxar, não ser babá de menino.

Larissa encarou a sogra por um instante. Depois voltou os olhos para o marido. Ele estava meio curvado, mas o apoio da mãe parecia deixá-lo mais alto.

— E quando vocês iam me avisar? — ela abriu a geladeira, pegou uma garrafa de água, fechou a porta devagar. — Amanhã de manhã, no saguão do aeroporto de Congonhas? Na hora de fazer o check-in? “Ah, Larissa, esqueci de contar, o Léo não vai, chama um Uber para buscar ele”?

A cara de Renato ficou vermelha. Ele odiava a calma da esposa. Aquela calma que acertava mais do que tapa.

— Mas que diferença faz a hora de contar? — ele abriu os braços. — O que importa é que está decidido. Minha mãe vai no lugar do menino e ponto final. Sou eu quem decide, sou o homem da casa. Não me enche o saco na frente dela.

— Não vou encher. — Larissa pegou a mochila do filho pendurada na cadeira. — Léo, calça o tênis, amor!

Da sala, o menino veio correndo, segurando um aviãozinho da Azul que ganhou de brinde na última ida ao shopping.

— Já vamos pro hotel com piscina, mãe?

— A gente vai antes para a casa da tia, filho. Mas depois a mãe te leva.

Dona Valdirene estalou a língua no céu da boca.

— Para quê tirar o menino de casa essa hora? Já são nove da noite. Deixa ele dormir, amanhã vocês levam.

— Não, a gente vai agora. — Larissa enfiou um casaco no filho, mesmo sem frio nenhum. Só para ocupar as mãos.

Renato piscou rápido, confuso. Aquela paz súbita o desarmou. Ele esperava choro, barraco, ameaça de divórcio. Mas Larissa estava sorrindo de canto de boca.

— Para a casa da sua irmã? Agora?

— Você mesmo disse que o Léo vai passar as férias em Curitiba. Então vou deixar ele lá hoje. Amanhã saio de lá direto para o aeroporto. Encontro vocês no portão de embarque.

Os ombros de Renato baixaram três centímetros. Ele chegou a rir, aliviado.

— Tá vendo, mãe? Eu falei que ela era razoável. A Larissa é parceira. Beleza então, vai com cuidado na estrada. Amanhã, às sete em ponto, no saguão da Gol.

— Sete em ponto. — Larissa repetiu e fechou a porta atrás de si sem bater.

O saguão do aeroporto de Guarulhos estava um caos. Gente arrastando mala, filas serpenteando até as escadas rolantes, um fiscal apitando para um carro parado no meio-fio. Renato olhava para o relógio a cada trinta segundos. Ao lado dele, dona Valdirene se abanava com um leque de renda. Estava de chapéu, óculos escuros enormes e uma blusa branca bufante que a fazia parecer uma nuvem de algodão-doce.

— Mas cadê essa mulher, Renatinho? O embarque já abriu. Daqui a pouco fecha. Vamos perder o voo por causa da manha dela.

— Que manha, mãe? — ele mordeu o lábio, suando. — Ela falou que vinha.

— Devia ter deixado ela em casa. Ficava a passagem dela de crédito para outro destino e nós dois viajávamos sossegados. Você e eu, mãe e filho, curtindo o resort.

Antes que Renato respondesse, ele avistou Larissa no meio da multidão. Ela caminhava com passos firmes, segurando uma mochila pequena nas costas. E ao lado dela, com uma malinha do Homem-Aranha que piscava luzinhas vermelhas, vinha o Léo.

Renato sentiu o estômago se contorcer.

— Larissa… O que o Léo tá fazendo aqui?

— Vai viajar. — Ela parou a um metro dele, sem nenhuma expressão agressiva. — Conhecer o mar. Lembra? Ele nunca viu o mar.

— Você enlouqueceu? — Renato se aproximou e sussurrou, encostando o rosto perto do dela. — Nós já conversamos! Ele não tá na reserva! Eu troquei o nome, tá no sistema. Entra a Valdirene, sai o Leonardo. Não tem como embarcar. Não vão deixar ele passar da segurança.

Dona Valdirene deu um passo à frente, o colar de pérolas falsas balançando.

— Larissa, você tá fazendo a criança sofrer à toa. Veio até aqui para depois voltar? Pede um carro por aplicativo e despacha o menino de volta para casa. Dá logo os passaportes aqui para o Renato fazer o check-in. A fila já tá andando.

— Não vou voltar sozinho. — O Léo grudou na perna da mãe, apertando a asa do Homem-Aranha.

— Moça, me ajuda aqui, por favor! — Renato se desesperou, acenando para uma atendente da Gol. Ele quase derrubou um senhor de chapéu que filmava o painel de voos.

A funcionária sorriu, profissional.

— Pois não, senhor.

— Meu nome é Renato Almeida. Reserva para três: Renato, Larissa e Valdirene. Confere aí.

Ela digitou, olhou para a tela.

— Confirmado. Três passageiros. Documentos, por gentileza.

Renato virou-se para Larissa com um sorriso de vitória.

— Tá ouvindo? Três! Para com esse teatro e entrega o documento, Larissa. Vamos perder a vez.

— Três passageiros mesmo. — Larissa abriu a bolsa. — Mas eu não estou entre eles.

A mão de Renato parou no ar.

— Como assim, você não tá?

— Bem assim. — Ela tirou dois vouchers impressos, com o logotipo azul e laranja da companhia área. — Que bom que eu abri seu e-mail, Renato. Há duas semanas. Enquanto você planejava sua surpresinha, eu fiz a minha. Peguei minha parte da poupança conjunta, liquidei umas férias atrasadas, e deu. Comprei duas passagens.

Ela balançou os papéis de leve.

— O Léo e eu vamos para Maceió. Nosso voo sai em uma hora e meia, portão 23. Outro terminal.

A boca de dona Valdirene se abriu tanto que o batom coral manchou um dente.

— Você tirou dinheiro da conta…?

— Minha metade. Certinha. — Larissa encarou a sogra com uma serenidade de fazer inveja a monge. — A sua metade tá lá, Renato. Intocada.

O rosto dele passou de vermelho para um tom quase roxo. Ele tentou pegar os papéis, mas ela já tinha guardado na bolsa.

— E a gente? Como é que fica? — a voz dele saiu um fio, quase engasgada.

— Vocês aproveitem. — Ela falou como se lesse uma receita de bolo. — Quarto duplo com vista para o mar. Água quentinha, artrose tratada, doces regionais. Ninguém vai pedir sorvete, ninguém vai perder o chinelo. Não era isso que vocês queriam?

— Larissa, volta aqui agora! — Renato gritou, chamando a atenção de um segurança armado. — A gente pagou três passagens nessa porcaria! A sua tá paga!

— Pede reembolso. Ou vai com a sua mãe mesmo. Vocês dois, juntinhos. Foi o que planejaram escondido de mim.

Ela tocou no ombro do filho.

— Vamos, Léo. Tem raio-x e detector de metais.

— Espera! — Renato se virou para a mãe, os olhos cheios de raiva. — Tá vendo o que a senhora fez? Eu disse que era melhor contar antes! Eu falei! “Mãe, a Larissa vai descobrir”. Mas a senhora insistiu, disse que mulher nenhuma manda no seu filho. Agora olha a merda!

Valdirene arregalou os olhos.

— Ah, a culpa agora é minha? — ela bateu com o leque no peito dele, cada batida uma ofensa. — Quem falou que ia dar um jeito de convencer ela no grito? Quem disse que ela ia abaixar a cabeça porque você é o homem da casa? Seu banana! Não segura nem a própria esposa e quer pôr a culpa na mãe!

Larissa já estava longe o suficiente para não ouvir mais. A discussão dos dois ia morrer abafada no burburinho do terminal, entre anúncios de voo e malas arrastadas. Ela não olhou para trás.

Duas semanas depois, Larissa estava sentada numa espreguiçadeira de madeira, os pés descalços apoiados na areia fofa da Praia do Francês. O sol pintava tudo de laranja e rosa, o mar fazia aquele barulho de lambe-lambe na costa. Léo estava de cócoras, construindo um castelo com torres tortas e um fosso que enchia de água toda vez que a onda chegava.

O celular vibrou em cima da canga. Era uma mensagem de Renato.

“Voltamos ontem. A viagem foi um inferno. Minha mãe só reclamou, do quarto, da comida, do calor. Disse que a praia era cheia de ambulante. Me cobrou dinheiro até para comprar água de coco. Larissa, me desculpa. Volta pra casa. A gente conversa, resolve. Prometo que dessa vez é diferente.”

Ela leu a mensagem. Depois abriu a câmera do celular, tirou uma foto do castelo do Léo e postou no perfil com a legenda: “Construindo memórias, um balde de areia por vez.”

Depois desligou a internet, tomou um gole de água de coco e fechou os olhos. O Léo corria atrás de um caranguejo, rindo alto.

Naquela noite, o castelo desabou com a maré cheia, como todos os castelos de areia. Mas pela manhã, ele começaria outro, um pouco mais longe, onde a areia era mais firme.

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