PT
A Corrente de Duas Voltas
Minha mãe adotiva falou, mastigando um pedaço de pão, que eu não voltasse para casa sem deixar o menino no hospital. Ela disse isso na véspera do parto. Eu tinha vinte e dois anos, uma barriga de nove meses e um medo que não cabia no peito. Meu pai, o Mário, não levantou a cabeça do jornal. Só confirmou com um gesto, como se eu tivesse pedido para consertar a torneira da cozinha.
— A gente já fez muito por você, Camila — disse Lúcia, limpando as migalhas da mesa com a ponta dos dedos. — Te tiramos daquele abrigo, te demos estudo, roupa, comida. Agora você joga tudo fora por causa de um moleque que sumiu? Não. Assina a papelada e pronto. Depois termina o curso técnico e arruma emprego.
Eu estava com duzentos e quarenta reais na carteira. Todo o dinheiro que tinha juntado para as primeiras fraldas. O pai do meu filho, um rapaz chamado Vinícius, tinha me bloqueado no celular quando contei da gravidez. Disse que não estava pronto para trocar fraldas. Sumiu. E agora meus pais, os únicos que eu tinha, também viravam as costas.
Quando o Enzo nasceu, eu já sabia que ninguém me buscaria na maternidade. Mesmo assim, ao sair pela porta automática com o bebê no colo e a sacola pendurada no ombro, percorri o estacionamento inteiro com a vista. Nenhum carro, nenhum rosto conhecido. O sol de janeiro castigava o asfalto. Minhas pernas tremiam de cansaço.
Andei até o ponto de ônibus sem rumo. No celular, procurei «casa de apoio para mães solteiras em Porto Alegre». Apareceu um endereço no bairro Partenon. Fiquei com vergonha de ligar. Tinha vinte e dois anos, um diploma de curso técnico, e não sabia para onde ir com meu filho recém-nascido. Sentei num banco, ajeitei a manta sobre o Enzo e respirei fundo. Se não fosse pelo peso dele contra o meu peito, eu teria desabado ali mesmo.
Decidi atravessar a rua para pegar um ônibus que passava pela rodoviária. Talvez de lá eu pedisse carona para alguma cidade do interior, tocasse a campainha de uma casa de avó e implorasse abrigo em troca de trabalho. Bobagem, eu sei. Não conhecia ninguém no interior. Mas era a única ideia que me veio à mente.
Não vi o carro. O pneu cantou alto, o capô parou a um palmo da minha perna. O motorista desceu rápido, um senhor alto, cabelo branco, rosto vermelho de raiva.
— Você ta louca, menina?! Atravessando assim com uma criança nos braços! Quer morrer? Quer me mandar pra cadeia na velhice?
Eu recuei, apertei o bebê contra o peito. O Enzo, assustado, começou a chorar. As lágrimas subiram pela minha garganta, mas não deixei cair. O senhor notou a sacola, a posição do bebê, meu rosto pálido.
— Peraí — ele mudou o tom. — Pra onde você vai com esse menino?
— Não sei — consegui falar, a voz falhando.
Ele não disse nada por uns segundos. Depois abriu a porta do carona.
— Entra. Vem pra minha casa, toma um banho, come alguma coisa. Depois a gente decide. Não discute, não. Olha o menino chorando.
Fui sem pensar. Meu nome ele nem sabia. Só perguntou:
— Como é o seu nome?
— Camila.
— Eu me chamo Aurélio.
Aurélio morava num apartamento de três quartos no bairro Cidade Baixa. Prédio antigo, escada de mármore gasta, cheiro de café passando por baixo das portas. Ele me deu o quarto de hóspedes, trocou o lençol e disse para eu amamentar e descansar. Eu não tinha fraldas, o Enzo já tinha se molhado. Ofereci meu dinheiro, duzentos e quarenta reais, para ele comprar o que precisasse. Ele recusou.
— Guarda isso. Eu não tenho com o que gastar mesmo.
Voltou pouco depois com uma sacola cheia. Na cozinha, fiquei sabendo que ele tinha chamado a vizinha do andar de cima, dona Irene, que era médica. Ela tinha montado uma lista de tudo o que uma puérpera e um recém-nascido precisavam. Enquanto Aurélio subia para comprar, eu desabei na cama, encostada na cabeceira, meio de lado. Quando acordei, o travesseiro estava quente das minhas lágrimas e o Enzo não estava mais ao meu lado.
Pulei da cama como se tivesse levado um choque.
— Onde está o meu filho?!
Aurélio veio do corredor com o Enzo no colo, embalando o bebê com uma firmeza que não parecia de primeira viagem.
— Calma. Ele acordou, você estava dormindo. Achei melhor deixar você descansar.
Irene chegou às onze. Ensinou a trocar fralda, a dar banho, a fazer compressa. Naquela primeira noite, Aurélio me fez sentar na sala, me serviu um prato de arroz com feijão e carne moída, e foi direto:
— Eu já cuidei de criança. Criar filho não é brincadeira, mas se mata do mesmo jeito, com amor. Você não vai pra lugar nenhum. Fica aqui.
Ele contou que era viúvo, aposentado, mas ainda fazia uns bicos como motorista para uma floricultura. Tinha morado sozinho por vinte e seis anos. O filho, único, morreu jovem, de moto. A nora, na época, estava grávida. Depois do enterro, ela desapareceu. Ele procurou, foi atrás de parentes, de amigos, de vizinhos. Nada. Nunca mais soube do neto.
— Como você chamou o menino? — perguntou.
— Enzo. Eu sempre gostei desse nome.
Aurélio ficou parado, com a xícara de café a meio caminho da boca.
— Esse era o nome do meu filho.
Eu senti um arrepio, mas não disse nada. Só comentei que fui abandonada em frente a um abrigo, com uma corrente e um medalhão deixados sobre o cobertor. Minha mãe biológica nunca apareceu. Os meus pais adotivos, Lúcia e Mário, me levaram para casa aos oito anos. Me criaram, me deram estudos, mas quando eu mais precisei, fecharam a porta. Agora eu não tinha para onde voltar.
Aurélio me encarou, sem piscar.
— Deixa eu ver esse medalhão.
Eu puxei a corrente por baixo da blusa. O medalhão era pequeno, de ouro baixo, com uma flor gravada na frente. Aurélio pegou com as duas mãos, virou, passou o polegar pela borda.
— Abre de um jeito especial — ele disse.
Apertou um dos lados, o medalhão se partiu em duas metades. Dentro, um fio minúsculo de cabelo castanho, preso com um pedaço de fita adesiva amarelada.
— Eu mesmo coloquei esse cabelo aqui — ele falou, a voz tremendo. — Mandei fazer esse medalhão pro meu filho. Ele usava quando saiu de casa pela última vez. A namorada dele, a Mariana, era a única pessoa que podia ter essa corrente. Você é minha neta.
O chão fugiu debaixo de mim. Aurélio se sentou pesadamente no sofá, esfregando a testa.
— Vinte e seis anos procurando. E você estava na minha frente, atravessando a rua sem olhar.
Ele me abraçou. Não precisei de teste, de papel, de nada. Eu sentia que era verdade. As mesmas orelhas, o mesmo queixo. E o Enzo, dormindo no meu colo, carregava o nome do pai que eu nunca conheci.
A vida na casa de Aurélio foi se ajeitando aos poucos. Dona Irene passou a vir uma vez por semana. O Enzo aprendeu a mamar no peito (no começo, reclamava, acostumado com a chuca). Eu ajudava na limpeza, preparava a comida, e à noite Aurélio ia até a floricultura para fazer as entregas. Ele fez questão de me apresentar ao dono, o seu Geraldo, que me ofereceu um trabalho de meio período quando o Enzo completasse três meses. Eu dormi aquela noite sem ouvir a voz da Lúcia na cabeça, coisa que não acontecia havia meses.
Enquanto isso, Lúcia e Mário, meus pais adotivos, passaram a me procurar. Foram à delegacia. O delegado, um tal de Prado, ouviu a história e disse, batendo a caneta na mesa:
— Se a senhora não deixou a moça entrar em casa com o bebê recém-nascido, isso configura abandono de incapaz. A senhora quer registrar o quê? O desaparecimento dela ou a sua própria culpa?
Saíram de lá murchos. Na volta, Lúcia inventou para a vizinha que eu estava num spa, me recuperando do parto. Mário ficou calado o caminho todo. Em casa, foi para o quarto e ficou mexendo no videogame antigo até a madrugada.
Passaram seis meses. Numa manhã de março, fomos eu, Aurélio e o Enzo ao Atacadão fazer a compra do mês. Eu carregava o Enzo numa mochila ergonômica, suada, mas feliz. Aurélio empurrava o carrinho abarrotado: fraldas, leite em pó, sabão em pó, bolacha de água e sal. Foi quando eu vi, de longe, Lúcia e Mário saindo de uma caminhonete.
Lúcia me viu primeiro. Ela travou, apertando a alça da bolsa.
— Camila!
Eu respirei fundo. Aurélio se posicionou ao meu lado, sem dizer nada, mas com os ombros rígidos.
— Você sumiu, por quê? Nós te procuramos — atacou Lúcia, antes de qualquer cumprimento.
— Procuraram mal. Vocês sabiam a maternidade em que eu ganhei o Enzo. Não apareceram. Não atenderam minhas ligações.
Mário deu um passo à frente, as mãos no bolso.
— Camila, eu errei. Fui fraco, segui a Lúcia. Mas me deixa ser avô do menino. Me dá uma chance.
Lúcia o interrompeu:
— Você não ia mesmo se casar com aquele rapaz, Camila. Ele foi embora. Nós só queríamos o seu bem.
— O meu bem era ficar com o meu filho. Vocês me criaram para ser meu suporte na velhice, não para me amarem. Eu lembro dos aniversários, lembro de vocês me levarem na escola. Mas também lembro da porta trancada quando eu mais precisei.
Aurélio pigarreou.
— Eu nunca entendi gente que pega uma gata e depois joga os filhotes no lixo quando a gata cresce. Ou não pega, ou resolve isso como gente civilizada. A Camila não é gata, e o Enzo não foi pro lixo. Vocês perderam a chance de serem família dela.
Mário me encarou. Os olhos dele estavam vermelhos.
— E você? Você quer voltar a nos ver?
Eu segurei o Enzo com mais força.
— Vou te ligar, pai. Só você. Agora, dá licença, que a gente tem que pôr as compras no carro.
Entrei no carro do Aurélio, bati a porta e apertei o cinto, para não virar o rosto para trás. Aurélio ligou o motor e esperou a caminhonete deles sair.
— Você tem o seu tempo, neta. Ninguém te obriga.
Dois meses depois, numa tarde de maio, com o Enzo já sentando sozinho e dando risada para o ventilador, eu peguei o celular. O número do Mário eu sabia de cor. Disquei, respirei fundo. Do outro lado, a voz dele atendeu no segundo toque.
— Oi, pai. Tô com saudade. Bora tomar um café?
Ele ficou mudo por uns três segundos.
— Onde você está? Eu vou agora.
— No parque Redenção. Pode vir sozinho?
— Vou.
Chegou em vinte minutos, de berma e camisa xadrez, meio ofegante. Eu estava sentada num banco debaixo da figueira grande, com o Enzo no colo. Ele parou a uns três passos, como se tivesse medo de atravessar uma cerca invisível.
— Pode chegar — falei.
Ele se aproximou. Segurou o menino no colo e aí sim eu vi o que ele não dizia: as lágrimas caindo, sem ruído, molhavam a camisa do Enzo.
— Obrigado, minha filha — ele disse, baixinho.
Eu tirei da bolsa um envelope pardo. Dentro, cinco fotos do Enzo e um convite para o batizado, dali a duas semanas. Empurrei o envelope para a mão dele.
— O batizado é no domingo, às dez, na igreja São Jorge. Se quiser vir, eu deixo. Mas a Lúcia, não.
Mário balançou a cabeça que sim, sem abrir a boca. Guardou o envelope no bolso da frente, como se fosse o papel mais valioso do mundo.
— Eu vou. E mando o Aurélio me encher o saco depois, se quiser.
Eu ajeitei a fralda do Enzo, que já se revirava no colo.
— Por enquanto, é só você que eu quero ver.
Mário puxou uma cadeira de plástico que estava encostada na árvore, sentou ao meu lado, e ficou segurando a mãozinha do neto.
Ficamos assim, os três, enquanto o sol descia atrás dos prédios da Cidade Baixa, até o Enzo pedir mamadeira.
