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A Vingança Silenciosa

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Larissa já estava na reserva havia quase quinze anos. Conhecia cada trilha, cada cheiro do Pantanal, cada grito de alerta dos macacos-prego. Quando viu as marcas de pneu no barro vermelho, naquela parte onde só entrava a pé ou de trator autorizado, sentiu a raiva subir pela garganta. Eram grandes, fundas. Uma caminhonete pesada. Caçadores.

Seguiu o rastro mata adentro, silenciosa como uma sombra. O sol ainda não estava a pino, mas o calor já colava a blusa do uniforme nas costas. O coração batia forte, mais por ódio do que pelo esforço. Ela sabia. Sabia que eram os mesmos que vinham dizimando as onças na calada da noite. Câmera-trap no ombro, celular com o número da Polícia Ambiental na discagem rápida. Mas naquela parte do parque não havia sinal. Teria que voltar depois.

O cheiro de pólvora chegou antes do som. Depois, o estampido seco. Um tiro. Larissa apertou o passo e, ao contornar um paredão de pedra, deu com a cena: três homens parrudos, suados, de boné e botas enlameadas. Um deles segurava uma carabina, os outros dois arrastavam o corpo inerte de uma onça-pintada para a caçamba da Hilux prateada.

— Larga isso! — a voz saiu mais firme do que ela imaginava. — Vocês estão dentro de uma unidade de conservação. Já acionei meus contatos e eles estão vindo pra cá.

Era mentira. Não tinha sinal. Mas o desespero deu coragem.

O que segurava a arma virou o rosto devagar. Um sorriso debochado.

— A mocinha tá sozinha, Ademar? — falou para o comparsa.

— Tá, Juliano. Sozinha e sem ninguém por perto. Acha que pode dar ordem na gente?

Larissa não recuou. Caminhou mais um passo, firme, e apontou para a onça no chão. O pelo dourado com manchas negras estava manchado de sangue. Uma fêmea. Talvez com filhotes por perto.

— Vocês vão responder por isso. Cada um de vocês.

O terceiro, Robson, mais baixo e atarracado, largou a pata do animal e se aproximou dela.

— Sabe o que a gente faz com dedo-duro no Pantanal?

Não deu tempo de reagir. Eles vieram juntos. Larissa esperneou, chutou, mordeu uma mão suja de terra, mas eram três. Em poucos minutos estava com os pulsos amarrados por uma corda de náilon e as costas coladas ao tronco áspero de um ipê-amarelo. A corda dava voltas no peito, nos braços, prendendo-a como um casulo.

Ademar, o chefe, se agachou na frente dela. Tirou o boné e passou as costas da mão na testa suada.

— Vai ficar aí de castigo. Se tiver sorte, alguém passa por essa trilha até amanhã. Se não… — ele olhou para a mata densa e sorriu. — As onças que você tanto ama vão sentir teu cheiro.

Os três riram. Recolheram a carcaça da onça, jogaram uma lona por cima e entraram na caminhonete. O motor roncou e o som foi sumindo até restar só o silêncio absoluto.

Larissa fechou os olhos. Tentou controlar a respiração. Puxou a corda. Ela cedeu um pouco, mas o nó era profissional. A cada movimento, o náilon cortava a pele dos pulsos. O suor ardia nos ferimentos.

Os minutos passaram. Uma hora. Talvez mais. O calor começou a diminuir. A luz ficou dourada. Uma arara soltou um grito rouco. Depois, tudo parou. O tipo de silêncio que não existe na cidade. Um silêncio que ouve respiração.

Foi então que ouviu. Um estalar de galhos.

Algo grande.

O coração dela parou por um segundo e depois disparou. Larissa virou o rosto devagar. Por entre os arbustos, duas esferas cor de âmbar a encaravam. Uma cabeça imensa surgiu, seguida pelo corpo musculoso coberto de manchas pretas. Uma onça-pintada. Muito maior do que a que eles tinham levado. Um macho.

O animal deu passos calculados, sem pressa. O cheiro de terra e pelo selvagem inundou o ar. Parou a dois metros. Larissa sentiu a bexiga fraquejar. Não conseguia desviar o olhar. A onça se aproximou mais. O focinho úmido tocou seu joelho, subiu até sua mão amarrada, farejando. O hálito quente passou pelo rosto dela.

— Por favor… — ela sussurrou, a voz nem saiu direito.

A onça ergueu a cabeça e encarou seus olhos. Por longos segundos, só aquilo. O mundo desapareceu. Depois, como se tivesse tomado uma decisão, o bicho girou o corpo e sumiu no capim alto, silenciosamente.

Ela soltou o ar que nem sabia que estava prendendo. Lágrimas escorriam. Ainda estava viva.

Mas não por muito tempo.

O ronco da Hilux voltou. Longe, mas se aproximando. Eles estavam voltando. Larissa entendeu na hora: tinham deixado alguma coisa. Ou, pior, decidiram não deixar testemunha. O motor desligou próximo. Portas bateram. Vozes.

— Tá escuro já. Acaba com ela e some. Direto no rio — a voz de Ademar era fria.

Os passos se aproximaram. Larissa tremia, lutando contra as cordas. Viu os três entrarem na clareira. Juliano carregava uma pá. Robson tinha uma faca. Ademar, o revólver.

— Ainda tá aí? Achou que a gente tinha esquecido? — Robson cuspiu no chão.

Ademar ergueu a arma.

E aí a noite explodiu.

Um rugido surdo, de dentro da terra, veio da escuridão. A onça surgiu como um raio, derrubando Juliano com uma patada que o fez voar contra uma pedra. A pá caiu, tilintando. Robson tentou correr, mas o animal girou e o pegou pelo braço, arrancando um grito horrível. Ademar atirou. O tiro saiu, mas pegou no ombro do próprio comparsa. A onça recuou, confusa, e depois avançou de novo.

Larissa viu tudo em fragmentos: pernas, sangue, terra. O revólver de Ademar caiu perto dela, fumegando. Robson se arrastava, gemendo. Juliano estava caído, imóvel. A onça, atingida de raspão, saiu correndo pela mata.

Silêncio outra vez. Pesado, grosso.

Ela olhou para a própria corda. Com a confusão, o nó tinha lascado um pouco. Mas ainda era impossível se soltar. Então viu. A faca de Robson estava no chão, a um metro. Larissa se jogou para o lado, esticou os dedos dos pés e conseguiu puxar o cabo.

Demorou uma eternidade, mas cortou a primeira volta de corda. Depois a segunda. Quando os braços ficaram livres, suas mãos sangravam, mas ela as usou para desfazer o resto dos nós. Levantou-se, trêmula.

A clareira era um cenário de pesadelo. Robson e Juliano gemiam, um ferido no braço, outro no peito. Ademar tinha sumido. Provavelmente correu mata a dentro. Larissa pegou o revólver caído e foi cambaleando até a caminhonete deles. Lá, no porta-malas, a carcaça da onça ainda enrolada na lona. Ela desviou os olhos e achou um rádio amador no painel.

Com as mãos ensanguentadas, acionou.

— Socorro… Aqui é a Larissa, fiscal do parque. Preciso de ajuda. Tem homem ferido. Tem onça ferida. Enviem a veterinária da reserva. E a polícia. Rápido.

A voz do outro lado confirmou as coordenadas.

Ela largou o rádio e olhou para a mata de onde a onça tinha vindo. O silêncio agora era diferente. Não vazio. Cheio de significado. Ela sabia: aquele macho tinha voltado por ela. Pela fêmea que eles tinham matado. Pela justiça que só a selva conhece.

Sem dizer nada, Larissa sentou na estrada de chão, perto dos faróis da Hilux, e esperou.

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