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O Farol da Verdade
O vestido branco estava estendido sobre a cama como uma promessa. Laura o observava da varanda do pequeno hotel-fazenda, sentindo nos ombros nus a brisa morna que subia do vale. Lá fora, a mata atlântica estremecia sob o céu carregado de nuvens de dezembro. Trovoadas na serra, diziam os funcionários. Chuva forte até a madrugada.
— Laura, vem terminar o penteado, você vai se atrasar!
Dona Sônia surgiu na porta do quarto, os dedos ágeis já enroscando uma presilha de pérolas falsas. Seu vestido azul-marinho cheirava a naftalina e lavanda. A mãe estava radiante, mais ansiosa que a própria filha.
— O Rômulo já está na capela, mandou mensagem agora. O pai dele disse que foram buscar o vovô Artur na pousada. Sabe como é velho teimoso, não queria vir de jeito nenhum.
Laura entrou no quarto e sentou-se diante do espelho. Viu seu reflexo: cabelo castanho preso num coque baixo, a pele morena salpicada de sardas que o sol de Campos do Jordão só acentuava. Os olhos, porém, carregavam uma inquietação que ela não sabia nomear.
— O vovô Artur veio, então?
— Veio. Depois de três dias enfurnado naquela guarita abandonada… Aquele velho e a maldita torre. Dizem que foi contra a vontade, mas o filho convenceu. Falou que era o casamento do neto, que era obrigação.
Laura sorriu sem graça. Rômulo falava do avô como se falasse de um santo. Artur era vigia aposentado, mas não de qualquer lugar — era o último guardião da antiga torre de rádio da serra, desativada havia quinze anos. Uma estrutura de pedra e ferrugem que não servia mais para nada, mas que Rômulo visitava como quem visita um altar. Só que naquela manhã Rômulo parecia distante, respondia monossílabo e evitava os olhos dela. Laura tinha tentado perguntar, mas ele dissera “depois a gente conversa” com um aperto de mão que não a tranquilizou.
Uma hora depois, a pequena capela do hotel estava cheia. As janelas abertas deixavam entrar o cheiro de terra molhada e hortênsias. Os pais de Rômulo, Heitor e Margareth, ocupavam o primeiro banco. Ele, engenheiro aposentado de postura rígida. Ela, uma mulher miúda e discreta, que limpava os óculos a cada cinco minutos com um lenço bordado. Tia Dilma, irmã de Sônia, fungava emocionada antes mesmo de a cerimônia começar.
Rômulo estava ao lado do altar, um metro e oitenta e cinco de nervosismo puro. O terno claro parecia apertado, e ele mexia no botão do punho como se quisesse arrancá-lo. Mas quando viu Laura entrar, o sorriso abriu-se inteiro, e por um instante ela esqueceu as nuvens escuras que se acumulavam sobre o vale.
O avô Artur chegou por último. Entrou mancando, apoiado numa bengala de cabreúva, os olhos cinzentos como a neblina da manhã. Recusou ajuda. Sentou-se no último banco, isolado. Não cumprimentou ninguém. Laura notou que ele trazia os sapatos sujos de barro e a gravata torta, e que seus dedos magros não paravam de tamborilar sobre o cabo da bengala.
A cerimônia começou. Trocaram alianças. O padrinho, Felipe, amigo de escalada de Rômulo, leu um poema do Quintana. Tudo corria bem.
E então a luz acabou.
Não foi um blecaute qualquer. O trovão estourou perto, fazendo os vitrais vibrarem, e a energia elétrica morreu de uma vez. A capela mergulhou em penumbra. As pessoas riram, nervosas. Alguém acendeu a lanterna do celular. O administrador do hotel gritou que o gerador entraria em ação em poucos minutos.
No escuro, Laura sentiu os lábios de Rômulo roçarem sua testa.
— Amor, vou lá fora um instante. Preciso ver se o vovô está bem. Ele saiu assim que a luz caiu. E tem uma coisa que eu preciso resolver com ele. Ontem eu descobri… — ele parou. — Depois te conto. Volto em cinco minutos.
— Eu vou com você.
— Não. Fica aqui, acalma os convidados. Por favor, Laura.
Ele soltou a mão dela. Laura ouviu seus passos se afastando, o rangido da pesada porta de madeira abrindo e fechando.
Os cinco minutos viraram dez. Depois vinte. O gerador funcionou, as luzes voltaram, a música recomeçou. Mas Rômulo não reapareceu.
Laura sentou-se no banco da frente, imóvel. O buquê de astromélias escorregou de seus dedos para o chão. Dona Sônia aproximou-se pálida.
— Cadê o Rômulo, filha?
— Foi ver o avô.
— Mas o avô Artur também sumiu. Ninguém viu os dois.
Felipe, o padrinho, já vasculhava o estacionamento. Voltou minutos depois, balançando a cabeça.
— O carro dele ainda está aqui. Mas nem sinal do Rômulo. E o velho… ninguém sabe pra onde foi.
A essa altura, os convidados já tinham percebido que algo estava muito errado. Margareth soluçava baixinho. Heitor falava ao telefone com a polícia, o rosto tenso. Alguém sugeriu que o noivo tivera um ataque de pânico, outro falou em acidente. Laura levantou-se num ímpeto.
— Ele foi para a torre.
— Como assim, a torre? — perguntou Felipe. — Com essa chuva?
— Ele sempre vai pra lá quando está angustiado. E desde ontem estava estranho, remoendo alguma coisa. O avô também. É o refúgio dos dois.
Felipe hesitou apenas um segundo. Depois pegou a chave da picape.
— Eu levo você.
A estrada de terra que levava ao alto da serra era um pesadelo de lama e pedras soltas. A picape S10 sacolejava, os faróis varriam a vegetação fechada. Laura segurava o vestido branco manchado de barro, as mãos geladas apesar do calor do motor. Ninguém falava.
A torre surgiu da escuridão como uma sentinela esquecida. Quarenta metros de concreto, ferro retorcido e uma antena que já não transmitia nada. Aos pés da estrutura, uma guarita de dois cômodos com a porta escancarada.
O carro parou. Laura saltou antes mesmo de Felipe desligar o motor.
— Vovô Artur? Rômulo?
A guarita estava vazia. Sobre a mesa, uma caneca de café frio. Sobre a cama estreita, jogado de qualquer jeito, o paletó do noivo. Laura reconheceu o tecido, o alfinete de lapela que ela mesma havia colocado horas antes. O coração dela disparou.
— Estiveram aqui. E saíram.
Felipe apontou para o chão. Marcas de passos na lama seguiam da guarita até a base da torre. Duas pessoas. A porta de ferro da torre, aquela que Artur mantinha trancada a cadeado Papaiz havia mais de uma década, estava entreaberta.
— Rômulo! — gritou Laura, correndo.
A torre era um poço escuro. Escada em caracol de degraus de concreto, sem corrimão. O cheiro era de mofo, ferrugem e algo mais adocicado, como cera de vela velha. Os três subiram. Felipe ia na frente com a lanterna. Dona Sônia, que insistira em ir, segurava-se nas paredes frias, resmungando uma Ave-Maria. Laura fechava o grupo, o vestido rasgado na barra, os pés descalços e feridos por lascas.
No topo, a sala octogonal. As janelas sem vidro deixavam o vento uivar como um animal ferido. No centro, sob a cúpula rachada, o antigo transmissor — uma geringonça de válvulas e fios corroídos, que mais parecia uma escultura de sucata. E diante dele, ajoelhado no chão de cimento, estava o avô Artur.
Rômulo estava de pé ao lado dele, uma mão apoiada no ombro do velho. Quando Laura entrou, ele virou o rosto. Estava pálido, os olhos vermelhos, mas estranhamente calmo. Na sua mão esquerda, um caderno de capa preta, úmido, com as páginas inchadas pelas chuvas passadas.
— Laura… Desculpa. Desculpa por ter sumido assim.
— O que está acontecendo aqui?
O velho respirou fundo, e a voz saiu rouca, arrastada, como se cada palavra lhe custasse um esforço imenso.
— Dezesseis anos atrás, esta torre ainda funcionava. Transmitia o sinal de rádio para toda a região, mas principalmente para os voos pequenos que cruzavam a serra. Eu era o responsável. Trinta anos de serviço, e nunca falhei um dia sequer. Até aquela noite.
Artur engoliu em seco, os dedos cravados na bengala.
— Um homem me procurou. Dono da Serra Tur, uma empresa de voo panorâmico. Ele disse: “Artur, desliga o transmissor amanhã entre uma e três da madrugada. Só duas horas. É o tempo de um amigo meu cruzar a fronteira sem ser detectado. Te pago trinta mil reais, vivo, em dinheiro. Dá pra consertar o telhado, comprar os remédios da dona Iolanda.” Eu recusei. Recusei três vezes. Mas na terceira, aceitei. Minha mulher estava morrendo, os remédios eram caros, o Rômulo, teu pai, tinha perdido o emprego. Trinta mil era o que eu não conseguia juntar em cinco anos. Achei que duas horas não fariam diferença.
A voz do velho falhou.
— Naquela noite, um monomotor Cessna tentou pousar no campo clandestino no meio da serra. Sem o sinal da torre, o piloto não viu o pico. Errou a rota. O avião bateu na encosta. Morreram quatro: piloto, copiloto e dois passageiros. Eu soube no dia seguinte. E calei. A investigação da época foi superficial — voo não homologado, empresa de fachada, o dono sumiu dias depois com o dinheiro do seguro. A perícia concluiu erro do piloto. Ninguém nunca questionou o transmissor porque esta torre já estava obsoleta, ninguém monitorava mais. E eu calei por dezesseis anos.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Nem o vento parecia soprar.
— Depois do enterro da Iolanda, continuei vindo aqui. Não tinha salário, não tinha mais função. Mas não largava a torre. Fechei a porta com cadeado e subia toda semana. Era o meu purgatório. Se eu deixasse este lugar, as almas me cobrariam mais ainda. Cada noite aqui em cima era uma noite a menos de dívida — Artur apertou o caderno nas mãos de Rômulo. — Escrevi tudo. Cada remorso. Ontem teu neto achou o diário.
Rômulo mostrou o caderno, a voz embargada.
— Laura, eu ia confrontá-lo hoje de manhã, mas ele foi pro casamento. Quando a luz caiu, olhei pra ele e ele entendeu. Levantou e saiu. Vim atrás. Pensei que fosse se jogar. Mas quando cheguei, ele tava ajoelhado, com o diário no colo, dizendo que não merecia perdão.
Laura não falou nada. Olhou para o velho, para as lágrimas que cavavam as rugas do rosto dele, para as mãos que tremiam sobre a bengala. Depois caminhou até ele, agachou-se, tirou o lenço que prendia o coque e limpou devagar o barro e as lágrimas do rosto do avô.
— Vamos descer, seu Artur. O senhor não precisa mais carregar isso sozinho. O Rômulo trouxe o senhor até aqui, agora a gente desce junto.
O velho ergueu os olhos, mas não conseguiu dizer nada. Rômulo ajudou-o a levantar-se. Os três se abraçaram no meio da sala octogonal, enquanto o vento da serra assobiava nas janelas vazias e, ao longe, a tempestade começava a se desmanchar.
Desceram em silêncio, Artur na frente, a bengala batendo nos degraus, as costas mais eretas.
Na base da torre, a viatura da polícia já havia chegado. Um sargento de meia-idade, amigo de Heitor, ouviu a confissão sem interromper. Quando o velho terminou, ele coçou a cabeça e disse:
— Seu Artur, isso é caso antigo. A Serra Tur fechou, o dono virou fumaça. Mas o senhor está fazendo o certo. Vou lavrar o depoimento. Com a confissão espontânea e a idade, dá pra conversar com o juiz.
— Eu vou com ele — disse Rômulo, sem largar a mão de Laura.
Ela ficou na guarita, vendo o carro da polícia descer a serra com o avô, o neto e o sargento. Dona Sônia, a seu lado, não dizia nada. Só segurava a mão da filha com força.
Uma semana depois, casaram-se de novo. Não na capela do hotel-fazenda, mas na própria guarita ao pé da torre, com as hortênsias molhadas de chuva e as cigarras cantando. Os convidados eram poucos: os pais, Felipe, tia Dilma. Artur, em prisão domiciliar concedida pelo juiz por causa da idade e da confissão, sentou-se num banco de madeira, de terno e gravata bem atados, uma Bíblia nas mãos. Laura notou que os sapatos dele estavam limpos.
Quando os noivos trocaram as alianças, o sol se punha atrás da torre velha, pintando o concreto de dourado e laranja. Rômulo apertou os dedos de Laura. Não houve discursos longos.
Anos depois, numa noite quente de verão, subiram a escada da torre mais uma vez. Agora eram três: Rômulo na frente, com uma lanterna de querosene; Laura atrás, com o filho de três anos no colo. O menino ria, encantado com o eco dos passos. No alto, acenderam a lanterna e a colocaram no parapeito da janela. A chama crepitou contra o vidro, e a luz dançou no rosto do garoto, que esticou a mãozinha para tocar o calor.
Lá fora, o canto das cigarras cresceu, enchendo o vale. A luz oscilou uma, duas vezes, e permaneceu acesa.
