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O pedido urgente daquela paciente
Trabalho no arquivo médico do Hospital João XXIII, em Belo Horizonte, há quase trinta anos. Já vi de tudo nesse corredor abafado, onde o ar-condicionado nunca funcionou direito e a gente toma café de garrafa térmica enquanto separa prontuários. Mas nunca vou me esquecer daquela manhã de novembro, com o ventilador roncando no meu canto e o rádio tocando baixinho uma moda sertaneja, quando a moça entrou com um advogado.
Ela devia ter uns trinta e poucos anos, cabelo preso de qualquer jeito, blusa de malha simples. Dava para ver que tinha passado por cirurgia fazia pouco tempo — caminhava devagar, meio curvada, apoiando a mão na parede. Mas o que mais chamava atenção era a firmeza na voz.
— Bom dia. Preciso de uma cópia da minha ficha médica completa. Especialmente dos formulários de consentimento e recusa de procedimentos da noite do meu parto.
O advogado, um senhor calvo e educado, completou:
— Minha cliente é a dona Mariana. Ela acabou de receber alta da maternidade. Houve um parto gemelar complicado e infelizmente perderam um dos bebês. Ela tem direito aos documentos.
Fiz a ficha de solicitação, expliquei que o prazo era de quarenta e oito horas, mas ela balançou a cabeça.
— Não posso esperar tudo isso, dona Neuza. — leu meu nome no crachá, coisa que quase ninguém faz. — Cada hora conta.
Claro que eu não entendi a urgência. Pensei que era só uma mãe abalada tentando entender a perda. Enquanto eu hesitava, ela puxou um papel timbrado do hospital e uma identidade com foto recente.
— Meu poder de decisão médica foi restabelecido. Aqui está a revogação da autorização que meu marido tinha. E estou lúcida e acompanhada por advogado. A senhora pode verificar no sistema. Peço encarecidamente que me entregue agora, nem que seja a via digital.
Fui olhar na pasta. Enquanto eu abria o armário de metal enferrujado, ouvi passos fortes no corredor. Um homem alto, camisa social amarrotada, entrou bufando.
— Pode parar aí mesmo, dona Neuza — ele disse, quase arrancando a pasta da minha mão. — Minha esposa não está em condições emocionais de pegar nada. Ela acabou de perder um filho, está confusa. Esses documentos são sigilosos.
Mariana nem se mexeu. Apenas colocou a bolsa sobre o balcão e falou com a mesma calma:
— Roberto, você não é mais meu procurador médico. Nem meu procurador de coisa nenhuma. Deixa a dona Neuza trabalhar.
A cena foi muito rápida. Roberto tentou discutir, disse que aquilo era armação, que depois ela ia se arrepender. O advogado deu um passo à frente, mostrou um documento com firma reconhecida. Mariana estendeu a mão para mim.
— Por favor.
Entreguei a cópia lacrada. Ela pegou a pasta, apertou contra o peito e agradeceu. Não vi lágrima, só um tremor nos dedos quando conferiu o número do formulário que estava por baixo do grampo — um formulário de “Recusa de intervenção cirúrgica de urgência”, assinado naquela noite. Percebi, de relance, que a rubrica era do marido.
Saíram. Fiquei olhando para o café esfriando na xícara. Não sabia o que pensar.
Meses depois, num sábado à tarde, eu estava na copa da ala administrativa quando passou uma reportagem na televisão do refeitório. “Justiça condena pai por omitir socorro médico ao próprio filho”. A câmera mostrou um casal saindo do tribunal: a moça era a Mariana, agora com o cabelo cortado bem curto e um menino no colo. O repórter explicava: ela conseguira provar, com o formulário e um vídeo feito por uma enfermeira, que o marido havia recusado a segunda intervenção no parto gemelar. Por vontade própria. Perdeu a guarda do filho sobrevivente, foi condenado a pagar cem mil reais de indenização e ainda respondia criminalmente.
Fechei os olhos e lembrei da cópia que eu tinha entregado naquela manhã abafada, com o ventilador girando. A tal via da recusa, carimbada e assinada, deve ter ido parar na mesa do juiz. E eu ali, suando, só pensava em terminar o expediente e comprar pão para o jantar. Mas fui o instrumento que ela precisava, sem nem saber.
Nunca mais vi a Mariana. Mas fiquei sabendo que o bebê se chama Gabriel, e o irmãozinho que não sobreviveu se chamava Miguel. Ela mandou plantar um ipê roxo no jardim da casa nova. Às vezes, quando passo de ônibus pela avenida perto do hospital, eu olho para a copa de um ipê florido e me pergunto se é aquele.
