З життя
A Chave do Portão
O portão da frente rangeu duas vezes. A primeira, curta e seca, quando empurrei a folha de ferro com o ombro, voltando da padaria. A segunda, mais arrastada, onze dias depois, quando a visitei parou diante dele. Onze dias. Foi o tempo que levei para juntar os papéis, ouvir o que não devia e entender que o meu casamento de vinte e sete anos tinha virado poeira entre os dedos.
Tudo começou num domingo à noite. O César deixou o celular em cima da mesa da cozinha, do lado da fruteira, e foi tomar banho. A tela acendeu. Eu não sou de mexer em coisa dos outros, nunca fui. Mas o nome que apareceu ali, “Amor da firma”, me fez largar a louça. Li a mensagem inteira. Depois mais cinco. Li que ele ia buscar a moça na rodoviária às nove e meia, que tinha reservado uma pousada em Gramado, que o enxoval do bebê já estava quase pronto. Bebê. A palavra ficou martelando na minha cabeça enquanto a água do chuveiro caía no banheiro.
Ele saiu do banho, me deu um beijo na testa e disse que estava exausto do plantão na oficina. Eu terminei de secar os pratos. Não falei nada. Nesses onze dias, continuei passando as camisas dele, caprichando no feijão, até comprei o sabonete de glicerina que ele gosta para deixar no banheiro. Por dentro, era como se eu carregasse uma panela de pressão sem válvula, daquelas que explodem na cara da gente se a gente bobear.
Só que a explosão não veio de mim. Veio dela. Às quatro e vinte da tarde de uma quinta-feira abafada, com a garoa batendo na janela da sala. Eu estava descalça, arrumando as samambaias na varanda, quando a campainha tocou. Achei que fosse a vizinha do 102 pedindo uma xícara de açúcar, ela vive esquecendo.
Abri a porta. Era uma jovem, uns vinte e poucos anos, com um casaco bege aberto mostrando uma barriga grande, redonda, já de uns sete meses. Cheirava a perfume importado. Na mão esquerda, uma bolsa de couro marrom, daquelas caras, com a alça dourada. Na direita, um guarda-chuva pingando no capacho.
— A senhora é a Maria Dulce, né? — ela perguntou, sem tirar o capuz da cabeça. — Eu me chamo Talita. A Talita do César. Posso entrar? Precisamos conversar.
Senti o cheiro de cigarro velho que vem do apartamento do seu Osmar, o vizinho do andar de baixo. Aquele cheiro misturado com o perfume dela me deu uma ânsia. Mas eu tenho um defeito antigo: pavor de barraco. Desde menina, na feira, eu era a que calava para não arrumar confusão. Então abri mais a porta e dei passagem.
Ela entrou falando. As botas de salto fizeram um barulho de carroça na cerâmica do corredor.
— Desculpa, mas a minha pressão tá baixa, a médica mandou eu não ficar de pé. Vou me sentar na cozinha.
Foi andando na frente. Conhecia a casa? Talvez ele tivesse mostrado fotos. Ou talvez ela viesse aqui na rua, de longe, vigiando. Aí passou a mão no balcão da cozinha, avaliando a pia de inox, a geladeira com ímãs de praia, o pano de prato bordado com o nome da minha mãe. Ela puxou a cadeira, a cadeira que eu comprei em seis prestações na loja do centro, e sentou.
— A senhora me dá um café? Mas tem que ser sem açúcar e bem fraquinho. O bebê tá fazendo uma bagunça aqui dentro.
Tirei a garrafa térmica do armário. A mão tremia, então segurei firme na alça, como faço quando tiro do forno a assadeira de lasanha. Enchi uma xícara até a metade.
— O César não veio falar com a senhora porque ele é um homem bom, tem coração mole. Fica com pena. Mas a vida agora é outra, dona Maria Dulce. Eu estou esperando um menino. O Heitor. E o Heitor precisa de espaço.
Ela bebericou o café, fez uma careta e empurrou a xícara para o lado.
— A minha quitinete lá no bairro Industrial não cabe um berço direito. A senhora sabe como é, né? Criança chora, acorda de madrugada, faz aquele barulho todo. A senhora já passou por isso. Aqui tem três quartos, é arejado, tem vaga na garagem. O César comentou que a senhora vive sozinha agora que as meninas casaram. E a senhora tem aquele sítio em Canela, não é? Lugar bom para descansar, cuidar de horta, fazer caminhada.
Ela parou, puxou o casaco para cobrir a barriga e me encarou. Esperando. Queria que eu dissesse “sim, claro, pode ficar com o que é meu”. Fiquei calada, esfregando as mãos na calça de moletom, sentindo a aliança meio frouxa no dedo. Emagreci nesses onze dias.
— A senhora não vai falar nada? O César avisou que a senhora era calada. Mas não precisa fingir que não entendeu. A gente quer a casa.
Aí ela fez o que me quebrou. Não foi o pedido, não foi a barriga, não foi o cheiro de perfume. Foi o que ela fez com o pedaço de bolo de fubá que tinha na mesa. Eu tinha assado cedo, junto com o café. Fatia bonita, com erva-doce e goiabada. Ela pegou a fatia, mordeu, cuspiu no guardanapo de pano branco que eu mesma bordei, e depois esfregou os dedos melados ali, como se limpa mão em pano de chão.
— Isso aqui tá seco. A senhora deveria ter avisado.
Respirei fundo. A panela de pressão interna deu um estouro surdo. Mas não gritei. Não derrubei a mesa. Apenas limpei a palma da mão no avental e fui até a gaveta do armário, aquela onde ficam as contas de luz, os documentos do carro e as chaves reserva da casa da minha mãe. Peguei uma pasta azul, grossa, daquelas de elástico.
Sentei na frente dela. Coloquei a pasta no meio da mesa, entre a xícara de café frio e o guardanapo sujo.
— Talita, você veio buscar a chave do portão?
— A senhora é espertinha, hein? — ela tentou dar um meio sorriso, mas os olhos ficaram duros.
— A chave, eu te dou. O portão, a casa, três quartos, vaga de garagem. É só assinar o que está aqui dentro.
Abri a pasta. Lá estavam os papéis que eu juntei escondido. Não era certidão de casamento. Não era documento da casa. Eram 142 páginas de extratos bancários, boletos vencidos, cópias de cheques devolvidos, cartas de cobrança de dois bancos e uma notificação judicial. Tudo no nome do César.
— O que é isso?
— A herança do seu Heitor. Ele não te contou? A oficina faliu tem oito meses. O empréstimo que ele fez para reformar os motores deu calote. Ele deve cento e oitenta e dois mil reais, sem contar juros. A dívida tá no meu CPF? Não. Eu cuidei direitinho. Tá no seu nome, no nome dele e no de um sócio que sumiu para o Mato Grosso.
Ela abriu a boca. A maquiagem falhou no canto do olho, ficou um fio preto escorrendo junto com o rímel barato. A mão foi para a barriga.
— Mentira — falou baixo.
— Mentira? Então liga para ele. Pergunta se foi ele que dormiu ontem no sofá da oficina porque o gerente do banco estava no portão de casa. Pergunta se ele tem como pagar a prestação da sua bolsa de couro. Porque as faturas do cartão, Talita, estavam vindo para o meu endereço. Eu vi o gasto na joalheria da Voluntários da Pátria. Achei até bonito. Um anel de pedra azul. Ele tem bom gosto para presentear namorada, o César. Sempre teve. O que ele não teve foi coragem de te contar que essa casa não tá no nome dele, que o sítio é do meu pai, e que o seu nome está como avalista em três empréstimos que ele assinou na praça.
Ela apertou a barriga com as duas mãos, como se o menino fosse cair dali a pouco. A cadeira rangeu. Ela tentou se levantar, mas as pernas não firmaram. Aí eu abri a pasta na página certa, a do contrato de compra e venda assinado por mim, e deslizei o papel na frente dela.
— Está lá. Ele prometeu te dar a casa. Mas a casa é minha. Comprada em 1987, com o dinheiro da costura da minha mãe e o seguro de vida do meu tio. Ele entrou aqui como hóspede, saiu como esposo. Agora quer sair como dono. Não vai.
Falei isso sem levantar a voz. Olhando para o fio do guardanapo onde ela tinha esfregado os dedos. Depois peguei uma caneta do porta-lápis, uma esferográfica azul que veio de brinde no banco.
— Pode levar a pasta. De presente. Lá dentro tem a cópia da chave do portão. Mas avisa o César que as malas dele já estão na calçada. E o meu advogado liga amanhã às nove. Não para discutir a casa. Para cobrar a pensão que ele parou de pagar para a Eduarda, a filha que ele teve no primeiro casamento e que está doente.
Ela não disse nada. A boca tremia, mas nenhum som saiu. Aí se levantou, bateu a mão na mesa, derrubou a xícara. O café ralo escorreu na toalha, misturando-se com o melado do bolo. Ela pegou a bolsa, enfiou a pasta debaixo do braço e saiu batendo as botas na cerâmica. O portão da frente bateu uma terceira vez. Forte. Seco. Como quem leva um tapa.
Fiquei sentada uns cinco minutos, ouvindo a chuva fina contra a janela da cozinha. Depois levantei, tirei o guardanapo sujo da mesa e coloquei na máquina de lavar, com um pouco de água sanitária. Lavei a louça. Sequei. Guardei a xícara no armário.
Antes de deitar, fui até a varanda. A samambaia estava pesada de garoa, o cheiro de terra molhada subia dos vasos. Apanhei a tesoura de poda e cortei duas folhas secas. O cheiro do mato me acalmou.
Lá embaixo, na calçada, vi as duas malas do César paradas perto do portão. Uma tinha o zíper aberto, uma meia preta saía para fora. A Talita descia a rua, braço esquerdo apertando a pasta contra o corpo, o guarda-chuva pendurado no pulso.
Entrei. Tranquei a porta. Girei a chave duas vezes. Depois fui até a gaveta e peguei o controle do portão. Apertei o botão de desligar o motor. O barulho do portão rangeu uma última vez, baixinho, como quem se despede.
Na mesa, o bolo ainda cheirava a erva-doce. Cortei uma fatia, passei manteiga e comi em silêncio, olhando a chuva. A casa ficou leve. Como há muito não ficava.
