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A mala estava no corredor quando eu vi a mulher sair correndo
Eu moro na 302 faz vinte e três anos. A dona Tereza é minha vizinha de porta desde que o marido dela ainda usava terno e gravata para sair às seis da manhã. Nunca tive intimidade, mas a gente se cumprimentava no elevador, trocava uma receita de bolo às vezes. O apartamento dela, no 303, é colado na minha parede da cozinha. Dá para ouvir o rádio quando ela sintoniza naquela estação de samba antigo. Dá para ouvir a colher batendo na panela quando ela faz doce de abóbora. E dá, principalmente, para ouvir quando alguém fala alto demais.
Naquela quinta-feira, eu tinha acabado de voltar da feira. Paguei sete e oitenta no quilo da laranja-lima e ainda estava com a sacola na mão quando o elevador parou no terceiro andar. A porta se abriu e eu vi uma mulher que eu nunca tinha visto na vida. Nova, cabelo alisado, barriga de uns sete meses esticando um vestido de malha caro. Ela carregava uma bolsa de couro que eu já tinha visto em vitrine de shopping, daquelas que custam o salário de uma pessoa. O salto fino fazia um barulho seco no piso de taco. Ela seguiu reto, olhando para os números das portas, e parou exatamente na frente da 303, a da dona Tereza.
Eu entrei no meu apartamento, mas fiquei com a porta parada, só uma fresta. Aquilo não era uma visita normal. A moça não tocou de campainha assim, de leve; ela apertou e ficou com a mão na cintura, como quem espera que abram logo. Quando a Tereza abriu, eu ouvi a voz da moça, alta e clara:
— A senhora é a Teresa? Sou a Karina. Vim falar sobre o Waldir.
Fechei a porta, mas fiquei na entrada, descalça. O Walidir é o marido da Tereza faz… deixa eu lembrar… faz quase trinta anos. Ele sempre foi um homem de sorriso fácil, desses que batem nas costas e chamam todo mundo de “meu bem”. Mas nos últimos dois anos eu notei que ele andava com uma pasta nova, um celular caro, e saía dizendo que ia para a firma. Ninguém via mais ele de boné sujo de graxa. Achei que tinha sido promovido. Agora, com essa moça na porta, entendi que a promoção era outra coisa.
Não vou mentir: encostei o ouvido na parede. É feio, mas quem nunca? A casa da gente fica vazia, a televisão baixa, e aí os sons vêm. A parede do 303 é fina. Deu para ouvir a moça entrando, o salto batendo no chão da cozinha. E depois, a voz dela, explicando:
— O Waldir é um homem bom, dona Teresa. Ele não quer magoar a senhora. Mas agora eu estou grávida, e a gente precisa de espaço. A senhora já criou os filhos, eles foram embora. Essa cozinha enorme, três quartos… a senhora sozinha não precisa disso tudo.
A Tereza não respondia. Eu imaginava ela parada, com o avental por cima do vestido, aquela mão sempre firme segurando um pano de prato. A moça continuou:
— O Waldir me mostrou os recibos dos móveis. Ele reformou essa cozinha há seis anos, pagou tudo. Ele tem direito de morar aqui com a família dele. A senhora vai para a casa de praia, que ele disse que tem ar-condicionado e varanda. Lá é até melhor para a idade da senhora.
Ouvi um arrastar de cadeira. Depois um barulho estranho, como se alguma coisa caísse na pia. E a voz da Tereza, baixinha, mas que eu conhecia bem — era a mesma voz com que ela ralhava com o porteiro quando o gato do vizinho derrubava o vaso:
— Karina, deixa eu te fazer uma pergunta.
A moça parou de falar. O silêncio durou uns três segundos.
— O Waldir não te contou que ele não trabalha há um ano e oito meses? Que a firma dele faliu e que ele deve cento e oitenta e três mil reais para o banco, para a financeira, para tudo quanto é lugar?
Nesse momento eu segurei a respiração. A Karina soltou um riso curto, forçado:
— A senhora está inventando. Ele tem carro novo, me leva para jantar…
— Ele usava os meus cartões, Karina. Você acha que o seu jantar de frutos do mar no restaurante da orla saiu de onde? Das minhas férias que eu não tirei por cinco anos, foi de lá. E a casa de praia? Ele vendeu a casa de praia da minha família há onze meses para pagar um agiota. Pegou a procuração que eu deixei por engano na gaveta e vendeu. Você nem sabia, né?
A moça gaguejou. Eu ouvi o salto dela recuando, a madeira do piso rangendo. A Tereza continuou, e agora a voz dela estava a um palmo da minha parede:
— E tem mais. Essa cozinha inteira, os três quartos, essa garagem onde ele guarda o carro que não é mais dele — está tudo no meu nome. Antes do casamento. Ele não tem registro aqui, não tem escritura, não tem nada. Ele só tem as dívidas. E a hora que eu abrir a porta, você vai ver duas malas no corredor. Ele não vem mais buscar. Já mandei trocar a fechadura ontem.
Eu me afastei da parede, o coração batendo. Fui até a porta do meu apartamento e olhei pelo olho mágico. A porta do 303 estava fechada. Então, o som da fechadura girando. A porta abriu e a moça saiu de costas, cambaleando, uma mão na barriga e a outra segurando a bolsa contra o peito. O rosto dela estava desmontado, com o rímel escorrendo até o queixo. O salto perdeu o prumo e ela quase torceu o pé no tapete do corredor. Larguei a maçaneta, fiquei parada igual um poste.
A moça se apoiou na parede, fungou alto, depois se recompôs e correu para o elevador, apertando o botão várias vezes. A porta do 303 continuou aberta. E foi aí que eu vi, com a luz do corredor entrando: do lado de dentro, encostadas na parede da entrada, estavam duas malas grandes. Uma preta, daquelas de rodinha, e uma marrom de couro velho, com uma etiqueta de tênis presa no zíper. Ao lado das malas, tinha uma caixa de papelão cheia de coisas de homem: uma chuteira, uma gravata, um rádio de pilha.
A Tereza apareceu na porta. Ela não estava chorando, não estava gritando. Estava com um pano de chão na mão esquerda e um balde na direita. A blusa azul-marinho tinha uma mancha branca de farinha na altura da cintura. Ela olhou para o elevador, viu a moça sumir, e depois olhou para mim. Eu, do outro lado da porta, fiquei sem saber onde enfiar a cara.
— Aí, dona Tereza — eu comecei, mas a voz falhou.
Ela fez um gesto com a cabeça, tipo “já volto”. Depois se abaixou, pegou as malas e colocou do lado de fora, junto à porta, uma em cima da outra, como se fosse lixo para o carregador. A caixa de papelão ela abriu, tirou o rádio, tirou a chuteira e a gravata, e começou a devolver tudo para dentro com certa paciência, como quem separa roupa para doação.
Eu vi a hora exata em que a ficha caiu: a Karina estava no elevador, descendo, e a Tereza estava colocando para fora a vida que o Waldir achava que tinha. Não houve briga, não houve escândalo. Só uma mulher de sessenta e dois anos, com o rosto amassado de quem dormiu mal, empurrando uma mala com o pé para ela bater certinho na quina.
A Karina já tinha ido embora. Eu ouvi o elevador fazendo aquele barulho de freio antigo lá embaixo.
A Tereza se levantou, passou a mão na testa, e me encarou.
— Você precisa de alguma coisa? — eu perguntei, porque era o único jeito de não ficar ali calada.
Ela fez que não. Depois falou, com a voz seca:
— Acho que preciso de outra fechadura. A de ontem está dura de girar. Vou chamar o chaveiro amanhã de manhã.
E voltou para dentro, deixando a porta encostada.
Eu fechei a minha. Voltei para a cozinha, lavei as laranjas, separei as folhas de alface. A água corria, mas lá da parede eu ainda ouvia o barulho da vassoura no piso. Depois o balde sendo arrastado. E, lá pelas onze e meia, um som seco de plástico: ela estava esfregando o chão da entrada, tirando as marcas de salto e de poeira que a Karina tinha deixado.
No dia seguinte, quando saí para pagar a conta da luz, vi que a fechadura do 303 era nova, prateada, sem nenhum arranhão. E que as duas malas tinham sumido do corredor. Só ficou um círculo de água no piso, como se alguém tivesse acabado de lavar e não estivesse mais chovendo.
Naquela noite, eu não ouvi mais a voz do Waldir vindo da parede. Só o rádio da Tereza, baixinho, tocando um samba antigo. E o cheiro de doce de abóbora queimando na panela.
